domingo, 10 de junho de 2012

Biológicos a nova fronteira Farmacêutica

Medicamentos de origem biológica ganharão cada vez mais espaço nos tratamentos, sobretudo para doenças graves

Chegada dos biossimilares deve baixar os custos para pacientes. Chamados de medicamentos do futuro, os biofármacos são conhecidos há mais de dois séculos pela medicina – as vacinas são os exemplos mais emblemáticos. Mas de uma década para cá, a indústria farmacêutica resolveu apostar em uma nova abordagem para esses medicamentos obtidos a partir de células vivas, desenvolvendo drogas específicas capazes de agir praticamente de forma individualizada em determinados tratamentos, ampliando as possibilidades de cura e minimizando efeitos colaterais. “Medicamentos biológicos são proteínas recombinantes produzidas em escala industrial por células de organismos vivos (bactérias, fungos ou células de mamíferos) geneticamente modificados”, explica o professor doutor em Clinica Médica e Reumatologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Valderilio Feijó Azevedo. Diferenciam-se, portanto, dos sintéticos, que são obtidos somente por métodos químicos, sem necessidade de engenharia genética ou grandes aparelhos para produção industrial. A técnica utilizada na produção dos medicamentos biológicos consiste em fazer com que as células de animais ou bactérias cultivadas passem a produzir determinadas substâncias a partir da inserção de material genético previamente modificado em laboratório.      
Medicamentos biológicos estão inseridos no conceito da medicina personalizada, que adapta o tratamento a cada paciente para desenvolver soluções terapêuticas e drogas mais eficazes. “A medicina personalizada se baseia na observação de que pacientes com o mesmo diagnóstico reagem de forma diferente ao mesmo tratamento”, afirma Ed Marins, gerente médico da Roche Farma. Características individuais, relacionadas a doença ou ao indivíduo, influenciam o modo como a droga atua, e essas diferenças não são levadas em conta quando se adota uma abordagem genérica, tratando todos os pacientes da mesma forma. “A principal diferença de ação dos medicamentos biológicos no organismo em relação aos sintéticos concentra-se na individualização do tratamento. O medicamento age em um alvo específico que pode ser diretamente em determinada célula ou tumor,
focando sua ação no problema”, explica Ed Marins. “Sua capacidade única de se ligar a alvos específicos no interior do corpo contribui significativamente para a melhora da sobrevida, com o aumento da expectativa de vida e melhor qualidade de vida para os pacientes”, acrescenta Marco Silva, diretor de especialidades da Sandoz. Enquanto os medicamentos biológicos agem seletivamente no órgão ou sistema envolvido na doença, os medicamentos convencionais agem de maneira mais difusa. “Biológicos usados no tratamento da artrite reumatoide, por exemplo, geralmente inibem proteínas que mediam o processo inflamatório e, portanto, inibem a inflamação, que é a causa da destruição das articulações”, completa Valderilio Feijó Azevedo.
Administrados, em geral, por via subcutânea ou endovenosa, os biofármacos revolucionaram o tratamento de muitas enfermidades que afetam o ser humano, tornando-se primeiras opções terapêuticas eficazes em algumas delas. “Até a década de 80, crianças com deficiência de GH (hormônio do crescimento) que apresentavam nanismo recebiam hormônio extraído de cadáveres, o que gerava inúmeros problemas clínicos, como a demência. Isso acabou com o GH obtido por organismos vivos (bactérias) e produzidos em larga escala”, revela o professor da UFPR. Medicamento biológico é indicado para diversas doenças autoimunes, como artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, espondilite anquilosante, artrite psoriásica, psoríase. Também pode ser usado no tratamento de vários tipos de câncer e em doenças sistêmicas como diabetes, deficiências hereditárias de certas proteínas ou enzimas. Há também os hemoderivados, que são obtidos a partir do plasma humano e utilizados, por exemplo, no tratamento de hemofílicos. “Em um futuro próximo os medicamentos biológicos serão usados para tratar quase todos os tipos de enfermidades”, prevê Azevedo. 

TECNOLOGIA

Manipular células vivas de modo que elas produzam um medicamento envolve aporte de muita tecnologia, estudos e testes clínicos. Apesar de eficientes, os medicamentos biológicos são mais instáveis e precisam ser testados mais vezes do que um produto químico. Sua estrutura possui moléculas grandes, de estabilidade diferente – que se alteram facilmente com condições inadequadas de temperatura, pressão ou vibração, perdendo sua bioeficácia – e com estrutura conformacional complexa. Por serem proteínas estranhas, quando introduzidas no organismo humano podem induzir a uma resposta imunológica (imunogenicidade) que, em alguns casos, põe em risco o equilíbrio orgânico. “Tal resposta imunológica pode lesar o próprio organismo ou levar à produção de anticorpos que neutralizam os biológicos, causando a perda de eficácia com o passar do tempo”, observa o professor da UFPR. “A única forma de garantir a eficácia e a segurança dos medicamentos biológicos é por meio de testes clínicos, que tendem a ser sofisticados e demorados.”         
As cópias, uma espécie de “genérico” do medicamento biológico inovador, são chamadas de biossimilares. O termo genérico, contudo, é impreciso e impróprio para designar o biossimilar. “Genéricos são cópias químicas exatas de medicamentos tradicionais, de moléculas pequenas, enquanto para os produtos biológicos não é possível fazer uma cópia idêntica já que a célula que produzirá o biológico será diferente, o processo para a produção será diferente e consequentemente o produto final será diferente”, pondera Ed Marins, da Roche. Assim, as cópias dos produtos biológicos poderão ser similares, mas nunca serão idênticas ao produto original e por isso não existem biogenéricos. Já a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não utiliza a terminologia genérico nem biossimilar para designar as cópias dos medicamentos biológicos. Para a agência o conceito de genérico não existe no caso de biológicos. De acordo com a RDC 55/2010, existem duas categorias de produtos biológicos e biotecnológicos no Brasil: os medicamentos inovadores, denominados biológicos novos, e as cópias, classificadas como biológicos apenas. É considerado medicamento biológico o produto que tenha passado por todas as etapas de fabricação (formulação, envase, liofilização, rotulagem, embalagem, armazenamento, controle de qualidade e liberação do lote de produto biológico para uso) e com registro na Anvisa. Os produtos biológicos novos devem ser registrados pela via regulatória clássica, com apresentação de dossiê completo contendo todos os dados de produção, controle de qualidade e dados não clínicos e clínicos (Fase I, II e III) completos. Já o produto biológico copiado pode ter um processo de registro mais simples que um medicamento novo. Recentemente a Anvisa consolidou um marco regulatório para produção desses medicamentos no País, que incluiu, além da revisão da legislação existente, a criação de uma câmara dedicada à análise de biofármacos novos e cópias.
Alguns especialistas dizem que para produzir um medicamento biossimilar (o mercado tem adotado essa terminologia para as cópias, comum em muitos países, ao invés da adotada pela Anvisa) são necessários mais estudos do que para a aprovação de um genérico feito com drogas químicas. “Medicamentos biológicos são mais complexos, assim como sua interação com o organismo, por isso são necessários estudos mais amplos dos aspectos relacionados à sua eficácia e segurança”, observa Ed Marins. Outros acreditam que não seja necessário reproduzir todos os estudos realizados pelo biológico correspondente, mas todos concordam que é preciso adotar uma boa margem de segurança, pois os riscos são elevados. “Pequenas distinções entre o medicamento original e sua cópia, em qualquer estágio do processo de manufatura ou até na forma ou via de administração aos pacientes, podem provocar grande diferença em termos de efeitos adversos. Alterações em uma molécula biológica podem levar ao aparecimento de complicações infecciosas, neoplásicas ou autoimunes”, diz Valderilio Feijó Azevedo. Os ensaios clínicos desenvolvidos para teste de biofármacos são a única forma de avaliar a sua eficácia e a imunogenicidade em seres humanos. “Eles têm que ser testados, custe o que custar. Muitas vezes por um tempo até maior do que as drogas sintéticas, porque seus efeitos imunogênicos podem demorar a aparecer”, explica o professor da UFPR.          
Pela complexidade envolvida, a produção de medicamentos biológicos requer altos investimentos em plantas de produção situadas em parques biotecnológicos, fazendo com que tais medicamentos tenham seu valor elevado. Normalmente eles custam de 50 a 1.000 vezes mais do que os medicamentos sintéticos. Na maioria das vezes, são necessários dez anos de pesquisa para que um novo produto chegue ao mercado. “Medicamentos biológicos possuem estruturas moleculares complexas e processos de produção específicos, que contemplam métodos analíticos e testes pré-clínicos. As moléculas são desenvolvidas em situações especiais e seguem um processo rigoroso de acompanhamento”, revela Ed Marins. “Muitos biofármacos já são produzidos em escala industrial, mas o preço só cairá quando essas moléculas perderem sua patente e surgirem cópias correspondentes”, avalia o professor Azevedo. Estima-se que com o fim das patentes dos biológicos inovadores e a produção de medicamentos biossimilares o custo dos tratamentos com biofármacos poderá cair entre 10% e 20%, permitindo o acesso de mais pacientes a eles e reduzindo o impacto financeiro para o sistema público de saúde. O cenário mundial para as próximas décadas é a de que muitos biossimilares serão produzidos e o custo de diversos tratamentos deve ser reduzido. No caso brasileiro a melhor saída para a questão dos custos elevados, na opinião do professor da UFPR, são os incentivos para desenvolvimento do parque biotecnológico nacional que incluam parcerias com transferência de tecnologia.        
A expectativa dos especialistas é que, em pouco mais de uma década, os biológicos respondam pela maioria da produção farmacêutica. Estudos preveem que, a partir de 2014, produtos biotecnológicos passem a representar 50% dos fármacos mais vendidos em todo o mundo. Se tudo der certo, a próxima geração de medicamentos movimentará perto de US$ 1 trilhão até 2020 em todo o mundo. Para Marco Silva, da Sandoz, o futuro da indústria farmacêutica é o medicamento biológico, mas isso não quer dizer que ele vai substituir o sintético. “Acredito que existe mercado para os dois produtos, que pertencem a classes terapêuticas diferentes. Os medicamentos biológicos são extremamente complexos e visam uma maior sobrevida e uma maior taxa de resposta do paciente. Isso não quer dizer que ele seja superior, mas o objetivo do medicamento biológico é ser seletivo. Um exemplo disso é o tratamento oncológico.”

Por: Marcelo de Valêncio

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