quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A farmacoterapia no idoso: revisão sobre a abordagem multiprofissional no controle da hipertensão arterial sistêmica.


A literatura reconhece a importância da equipe multiprofissional no cuidado à saúde dos idosos, pois a mesma pode influenciar positivamente na adaptação da doença e a efetivação da farmacoterapia. Na equipe, há múltiplos objetivos e abordagens com ação diferenciada, corrigindo a grande limitação no tratamento dos idosos, melhorando a adesão ao programa de atendimento e o controle da doença.           

Os erros na utilização de medicamentos, mais comuns, estão divididos nas etapas de prescrição, dispensação e administração. Por esse motivo, no presente trabalho, foram enfatizadas as atividades dos profissionais de saúde ligados diretamente a essas etapas da farmacoterapia como o médico, o farmacêutico e o enfermeiro.       

O médico     

Estudos têm demonstrado problemas relacionados às prescrições, originando enormes danos à população.   

No Brasil, milhões de prescrições geradas, anualmente, nos serviços públicos de saúde, não apresentam os requisitos técnicos e legais imprescindíveis para a dispensação eficiente e utilização correta dos medicamentos. Isso retroalimenta a demanda pelos serviços clínicos, muitas vezes em níveis mais complexos, diminuindo a relação custo/efetividade dos tratamentos, onerando de forma desnecessária os gastos com saúde e diminuindo a qualidade de vida dos pacientes. Além disso, as prescrições inadequadas, ou mesmo ilegíveis, aliadas ao baixo nível socioeconômico-cultural dos pacientes brasileiros são fatores relevantes na exposição das várias camadas que compõem a sociedade, em especial idosos e crianças, aos possíveis PRM.     

Para o idoso, deve ser considerado, além das peculiaridades da farmacocinética e farmacodinâmica dessa faixa etária, o custo, o grande número de medicamentos prescritos e as dificuldades na adesão ao tratamento. No entanto, é comum encontrar, em suas prescrições, dosagens e indicações inadequadas, interações medicamentosas, associações, como também redundância (uso de fármacos pertencentes à mesma classe terapêutica) e medicamentos sem valor terapêutico. Tais fatores podem gerar reações adversas aos medicamentos, algumas delas graves e fatais.       

Particularmente, os pacientes idosos são mais susceptíveis a reações adversas durante o tratamento com anti-hipertensivos. Por essa razão, as intervenções não-farmacológicas possuem grande importância e devem sempre que possível ser incentivadas.          

Na prática diária, o atendimento médico é realizado em poucos minutos, envolvendo: anamnese, exame físico, solicitação de exames laboratoriais, prescrição de medicamentos e informações sucintas para o controle da pressão arterial. A informação verbal fornecida pelo médico é frequentemente insuficiente e, como na consulta, o paciente prioriza os dados a respeito da doença e do diagnóstico, acaba prestando menor atenção às informações sobre o medicamento prescrito. Melhor dizendo, como o tempo da consulta é insuficiente para que o paciente possa compreender a prescrição, a não adesão é ocasionada, principalmente, por falta de informação.

Em geral, os médicos não se sentem confortáveis para discutir o cumprimento das prescrições com seus pacientes, em geral, por considerar tais questionamentos como invasão da privacidade ou, ainda, por não saber lidar com situações que particularmente interferem na adesão ao tratamento. Por essas e outras razões, a literatura demonstra a necessidade de aperfeiçoamento da qualidade da comunicação entre médico e paciente, além de ações a serem desenvolvidas por outros profissionais, como o enfermeiro e o farmacêutico, que devem contribuir para um trabalho em equipe, visando a saúde do paciente. Do mesmo modo, o apoio do médico aos demais membros da equipe é necessário para o sucesso do processo educativo e a adesão ao tratamento. 

O farmacêutico      

Em outros países, tradicionalmente, os farmacêuticos são os profissionais adequados para orientar a respeito dos medicamentos prescritos e dispensados aos idosos, pois estão em contato frequente com os pacientes, podendo iniciar discussões sobre os problemas de saúde, informar sobre a natureza da doença crônica e identificar as razões do tratamento.          

A participação dos farmacêuticos no controle da hipertensão arterial consiste na seleção, gerenciamento do estoque, do armazenamento correto e na dispensação dos medicamentos, mas, principalmente, na promoção da Atenção Farmacêutica ao paciente.      

Dentro desse contexto, a Atenção Farmacêutica é uma nova filosofia prática, na qual o profissional tem papel fundamental a desempenhar, no que tange ao atendimento das necessidades dos pacientes idosos e crônicos, com relação aos medicamentos. Com isso, os farmacêuticos, podem colaborar com os demais profissionais de saúde e com o paciente, no planejamento, orientação e acompanhamento da farmacoterapia, podendo produzir resultados sanitários específicos. Na prática, a Atenção Farmacêutica é o seguimento farmacoterapêutico documentado do paciente, visando a terapia efetiva, por meio da prevenção, detecção e resolução dos PRM, além da melhoria na sua qualidade de vida. Os farmacêuticos atuam como último elo entre a prescrição e a administração, identificando na dispensação os pacientes de alto risco, enfatizando a importância da monitorização da farmacoterapia e controle da pressão arterial, evitando futuras complicações.          

De forma geral, as intervenções farmacêuticas têm mostrado resultados positivos na hipertensão arterial, reduzindo custos, melhorando as prescrições, controlando a possibilidade de reações adversas e promovendo maior adesão do paciente ao tratamento. Os principais estudos sobre a intervenção de farmacêuticos na terapia do idoso são escassos e limitados aos países de economia avançada. Só nos últimos anos, tal prática vem sendo introduzida no país com resultados satisfatórios. Entretanto, devido ao limitado acesso à Atenção Farmacêutica, os níveis de morbimortalidade, associados ao uso dos medicamentos, não param de crescer, no mundo todo.        

A prática clínica centrada no paciente tem levado os farmacêuticos a se aproximar dos profissionais de saúde, portadores de hipertensão arterial e suas famílias. Assim, os farmacêuticos estão aprimorando suas habilidades de acolhimento, cuidado e educação ao paciente, a partir da observação e aprendizagem da prática realizada por outros profissionais.           

Em outros países, a formação e a ação conjunta dos farmacêuticos e dos enfermeiros têm sido ampliadas, com resultados positivos nas clínicas de atenção aos pacientes nos tratamentos de hipertensão arterial, diabetes mellitus, câncer, AIDS e de atenção à família.      

O enfermeiro          

Na prática, a importância do enfermeiro está ligada ao processo de educação, motivando o portador de hipertensão arterial a realizar o autocuidado, utilizando estratégias de ensino-aprendizagem, implementando a comunicação do paciente e a verbalização dos seus problemas. O enfermeiro pode ser identificado como um elemento de confiança no compartilhamento dos problemas e questões de ordem física, social, familiar, econômica e emocional. Na maioria das vezes, os portadores de hipertensão arterial desejam não só esclarecimentos para suas dúvidas, mas, também, de alguém que amenize seus anseios.     

O enfermeiro realiza a aferição da pressão arterial, avaliações físicas, interpretação de diagnóstico (incluindo a leitura do eletrocardiograma) e orientação sobre aspectos psicossociais, bem como colabora para a orientação e administração correta dos medicamentos (em ambulatórios e hospitais). Além das atividades já citadas, o mesmo ainda é responsável pela administração de serviços, acompanhamento do tratamento dos pacientes com pressão arterial sob controle, encaminhamento ao médico nos casos em que a pressão arterial não esteja devidamente controlada ou na presença de outras intercorrências, como também na delegação das atividades do técnico/auxiliar de enfermagem.           

Enfermeiros e farmacêuticos podem prover a educação sobre hábitos sociais e outros fatores que podem afetar o controle da pressão arterial (como peso, ingestão de sódio, consumo de álcool, atividades físicas e tabagismo), bem como complicações relacionadas à hipertensão arterial. Outrossim, a troca de experiências pode contribuir para a melhora da farmacoterapia. Desse modo, a introdução de metodologias educacionais devem enfocar a adesão, enquanto relação colaborativa e acima de tudo de co-responsabilidade, o que pressupõe que todas as ações conscientizadoras impliquem na troca de experiências, questionamentos e humanização dos pacientes, e não em atos dominadores, informativos e distantes da realidade. Tornar os pacientes conscientes e participativos na conservação da sua saúde e prevenção das suas doenças implica em conduzir tantos os usuários de medicamentos como os profissionais de saúde a uma relação de encorajamento da autonomia do idoso, em uma perspectiva de adaptação contínua.  
       

Fonte: Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.14 no.3 Ribeirão Preto May/June 2006
http://www.scielo.br/pdf/rlae/v14n3/v14n3a19.pdf