domingo, 11 de novembro de 2012

Estudo acha sinais de Alzheimer 20 anos antes de sintomas clínicos


Um dos possíveis motivos para drogas experimentais contra o mal de Alzheimer falharem é que quando os médicos descobrem a doença, ela já danificou demais o sistema nervoso do paciente. Agora, dois artigos publicados na revista especializada Lancet Neurology trazem nova luz para tentar descobrir sintomas dessa condição ainda nos seus estágios iniciais. Os cientistas afirmam que chegaram a encontrar sinais da doença em pacientes 20 anos antes da idade média de aparecimento dos sintomas clínicos.
Liderados por Eric Reiman, do Banner Alzheimer’s Institute, Yakeel Quiroz, da Universidade de Boston (estas duas dos EUA), e Francisco Lopera, da Universidade da Antióquia (Colômbia), os pesquisadores examinaram os casos de 5 mil pessoas no país da América do Sul. Cerca de 30% do grupo têm uma mutação no gene presenilina 1 (PSEN1), que leva ao desenvolvimento da doença mais cedo que na maioria dos pacientes. Essa forma rara de Alzheimer oferece a oportunidade para os cientistas de estudar os primeiros sinais da doença, antes de os sintomas clínicos aparecerem, já que o desenvolvimento do mal nesses pacientes é certo.   
Em um dos estudos, os pesquisadores realizaram exames de imagem do cérebro dos participantes, testes de sangue e, em 44 casos de pessoas entre 18 e 26 anos, análise do fluido cerebroespinhal (também chamado de cefalorraquidiano). Destes 44, 20 tinham a mutação no gene PSEN1 e desenvolverão com certeza a doença. Nenhum dos participantes, contudo, mostrou enfraquecimento cognitivo na época dos exames.
Por outro lado, os cientistas encontraram notáveis diferenças na estrutura cerebral entre os dois grupos. Aqueles com mutação no PSEN1 tinham grande atividade das regiões do cérebro chamadas de hipocampo e parahipocampo e tinham menos massa cinzenta em certas áreas do órgão. Naqueles 20 participantes que tiveram o fluido cerebroespinhal analisado, havia grande quantidade da proteína beta-amiloide nesse líquido.     
A beta-amiloide está envolvida no depósito de placas no cérebro – estudos anteriores indicam que esse depósito é um biomarcador-chave do Alzheimer e costuma estar presente entre 10 e 15 anos antes de a doença ser diagnosticada clinicamente. A nova pesquisa mostra grande produção de beta-amiloide antes mesmo da formação de depósitos de placas.   
A idade média para o desenvolvimento do Alzheimer nos pacientes com mutação no PSEN1 é 45 anos. O novo estudo indica que existem sinais do mal presentes com até 20 anos de antecedência do aparecimento clínico da doença, mais cedo que qualquer estudo até agora, afirmam os cientistas.
No outro estudo, o mesmo grupo de pesquisadores usou uma técnica para seguir os depósitos de placas no cérebro dos pacientes com a mutação no gene. Ele descobriu que as placas começam a se acumular nesses indivíduos perto dos 30 anos. Segundo escrevem os autores do estudo no artigo, essas descobertas “vão ajudar a preparar o palco para a evolução de tratamentos de prevenção familiar do mal de Alzheimer, e esperamos que ajude a entender os estágios iniciais do Alzheimer de início tardio, que é mais comum.”
Em um comentário publicado na revista, o professor Nick Fox, da Universidade College London, que não tem relação com o estudo, afirma que “essas descobertas questionam nossos modelos da doença de Alzheimer em diversas frentes. Elas sugerem que as mudanças neurodegenerativas ocorrem 20 anos antes do aparecimento de sintomas e um pouco mais cedo do que sugerido por outros estudos de imagem cerebral de indivíduos com risco da doença de Alzheimer herdada. Mais pesquisas são necessárias, mas uma interpretação desses resultados indica que eles adicionam evidências de que a doença de Alzheimer é caracterizada por um longo período pré-sintomático de mudanças lentas e progressivas que podem potencialmente ser seguidas e que, portanto, podem abrir uma janela terapêutica de intervenção antecipada.”