sábado, 19 de janeiro de 2013

Estudo desmonta tese de que colesterol bom alto protege coração


Berlim - Novos estudos põem abaixo a teoria de que altas taxas do chamado colesterol bom (HDL, high density lipoprotein) são suficientes para proteger o coração do excesso de colesterol ruim (LDL, low-density lipoprotein). Duas pesquisas, realizadas em centros de doenças cardíacas nas universidades de Zurique, na Suíça, e de Leipzig, na Alemanha, revelam que o HDL pode perder o seu efeito protetor em consequência da oxidação.         
O pesquisador Volker Adams, chefe do Laboratório Cardiológico do Centro do Coração da Universidade de Leipzig, na Alemanha, constatou que o efeito protetor do HDL é prejudicado pela oxidação. O HDL remove o colesterol das artérias e o leva de volta ao fígado para reutilização ou excreção. Quando está oxidado, no entanto, deixa de cumprir esta função. Segundo o especialista, a vitamina B3 melhora a função protetora do HDL, mas a medida mais eficaz é a prática diária de exercícios.   
“A partir de 30 minutos diários de caminhada os exames de laboratório indicam uma melhora da atuação do colesterol bom” explica Adams.
Testes com um grupo de 24 pessoas (sendo oito saudáveis, oito com leves problemas cardíacos e oito em estado mais grave) mostraram que, depois de três meses de exercícios regulares (no mínimo 30 minutos de caminhada por dia), houve uma redução de 30% da oxidação do HDL.     
“Até os oito pacientes com problemas cardíacos graves apresentaram melhora” diz Adams, que atualmente prossegue o estudo para descobrir se os exercícios regulares melhoram a atuação do HDL na sua capacidade de transporte do colesterol das artérias para o fígado.          

Efeito protetor no organismo   

Segundo ele, o HDL aumenta a produção de óxido nítrico (NO), o transporte do colesterol das artérias para o fígado, onde é decomposto e levado para o intestino. O NO reduz a pressão nos vasos sanguíneos, tendo, assim, um efeito protetor.
Há dez anos um estudo americano já tinha apresentado a suspeita de que uma taxa mais alta de HDL (acima de 50 mg/dl) no sangue nem sempre significava mais proteção contra doenças cardiovasculares. Cinco anos mais tarde, a equipe do especialista Ulf Landmesser, da Universidade de Zurique, na Suíça, começou a decifrar o enigma do distúrbio de função do HDL e, em 2011, as primeiras conclusões foram publicadas no periódico “The Journal of Clinical Investigation”.
“Nossa primeira conclusão foi que as pessoas que sofriam de doenças arteriais tinham um distúrbio funcional, apesar das taxas boas de HDL. A apo-1, proteína mais importante do HDL, apresentava erro de função em consequência do aumento da apo-3” diz Landmesser, que coordena uma pesquisa com 500 pessoas com problemas cardiovasculares sobre o bloqueio da função protetora do HDL.          
A novidade mostrada pelos novos estudos é que nem sempre o HDL pode proteger o coração. Por isso, as tentativas de medicamentos para melhorar a taxa de colesterol baseadas no aumento do HDL não deram certo. Há cerca de seis anos, o laboratório Pfizer suspendeu um estudo com uma substância (torcetrapib), capaz de aumentar a taxa de HDL, que teria causado um aumento de casos de óbito em vez do efeito desejado, de redução dos casos de morte. Oitenta e dois dos quinze mil pacientes que participaram do estudo faleceram. Outra tentativa foi feita pelo laboratório suiço Hoffmann-La-Roche com uma substância parecida, dalcetrapib, que não mostrou o efeito desejado. O estudo terminou em maio do ano passado.       

Desequilíbrio geral no metabolismo  

Para Landmesser, o processo de perda de função positiva do HDL é complicadíssimo porque envolve vários fatores. Além da composição das proteínas, cujo o desequilíbrio faria com que os radicais livres atacassem o HDL, ele descobriu que o processo de oxidação, que tira do HDL a sua capacidade protetora, ocorre também em consequência de um distúrbio de uma enzima associada à lipoproteína, chamada paraoxonase. O especialista descobriu que pessoas que sofrem de diabetes tipo 2 apresentavam uma taxa maior de desequilíbrio da paraoxonase, o que ele explica como resultado de um desequilíbrio geral do metabolismo. Mas pessoas saudáveis também podiam apresentar o mesmo distúrbio.      
Há anos a teoria do colesterol bom preconiza que uma taxa HDL acima de 50 mg/dl teria a capacidade gradual de reduzir o efeito ruim do LDL, que deveria ficar em até 160 mg/dl, sendo a taxa geral aconselhada para uma vida saudável algo em torno de 200 mg/ dl.         
“Ainda hoje vale a regra de que o LDL alto demais e o HDL baixo demais têm o efeito bomba relógio que pode explodir como infarto ou de acidente vascular cerebral” diz Landmesser. 
Segundo o médico esportivo austríaco Hans Holdhaus, as doenças cardiovasculares atacam mais hoje do que no passado por causa do alto grau de sedentarismo da vida moderna.  
“Na Idade da Pedra, uma pessoa caminhava em média 19 quilômetros por dia. Hoje a média é de 800 metros e isso se reflete nas estatísticas de saúde” conclui Holdhaus, que defende um retorno do homem às origens, pelo menos no que se refere a movimentos. 
     

Fonte: O Globo