segunda-feira, 29 de julho de 2013

Mutação genética rara inspira nova droga

Gigantes da indústria farmacêutica estão numa verdadeira corrida para aprovar a venda de um medicamento que promete baixar drasticamente o nível de colesterol nas pessoas.

A droga começou a ser desenvolvida depois que pesquisadores descobriram uma mutação genética muito rara, que estimula o corpo a eliminar naturalmente o LDL, o chamado colesterol ruim.

Três laboratórios, Amgen, Pfizer e Sanofi, já têm medicamentos que imitam os efeitos desta alteração dos genes. 

Os resultados preliminares dos ensaios clínicos são considerados extremamente promissores. 

Os especialistas esperam poder chegar a um novo patamar na prevenção de ataques cardíacos.

— Esta é a nossa maior prioridade — afirmou Andrew Plump, chefe de medicina translacional do Sanofi. — Nada mais que estamos fazendo tem o mesmo impacto na saúde pública.

Em geral, mesmo adultos saudáveis têm taxa de LDL (as iniciais em inglês de lipoproteína de baixa densidade) superior a 100. 

Entretanto, o colesterol de duas mulheres — uma americana professora de aeróbica e uma jovem do Zimbábue — permanece abaixo de 15. Ambas herdaram de seus pais e mães uma mutação no gene chamado PCSK9.

O impacto que este novo medicamento pode provocar no mercado é enorme. 

De acordo com estimativas de Gary Gibbons, diretor do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue dos EUA, mesmo se a droga for cara e injetável, dois milhões de americanos deverão se interessar.

Caso ela possa ser ministrada em comprimidos e for vendida a um preço acessível, um em cada quatro adultos poderia usá-la.

A antecipação da produção do medicamento está sendo feita numa escala nunca antes vista na indústria. 

O Amgen, por exemplo, já está preparando três fábricas. 

Esta é uma aposta cara numa droga que ainda está sendo testada e pode levar anos até a sua aprovação.

— A corrida é para ver quem consegue fazer isso primeiro — explicou Joseph Miletich, chefe de pesquisa do Amgen.

Hoje, o principal medicamento para baixar o colesterol é a estatina, lançada em 1987. 

Apesar de avanços, o número de mortes associados às doenças cardíacas ainda é avassalador; e a principal causa da mortalidade entre americanos, com cerca de 600 mil casos por ano. 

A nova droga, afirmam especialistas, poderá reduzir drasticamente esta letalidade.

Apesar do otimismo, Gibbons alerta que apenas os estudos em larga escala — que estão apenas começando — determinarão quais serão os impactos na prevenção aos ataques cardíacos.

Neste momento, as fábricas continuam recrutando voluntários para testar as drogas. 

Entre eles, David Mayse, de 60 anos, que mora em South Point, Ohio, nos Estados Unidos. Seu primeiro ataque cardíaco aconteceu quando ele tinha 49. 

O segundo o levou ao hospital para a uma cirurgia. 

Em fevereiro de 2012, seu colesterol era 160 mesmo tomando Vytorin, uma combinação de estatina com um outro medicamento.

Quando foi incluído no estudo para a droga experimental do Amgen, seu LDL caiu para 42.

Este não foi um caso isolado. 

Em geral, depois que passaram a tomar o novo medicamento, voluntários com LDL bem superior a 100 têm visto a sua taxa despencar para 50, 40 ou ainda menos. 

Os medicamentos foram injetados, em uma ou duas doses por mês.

A redução drástica do LDL fez o Pfizer estabelecer um piso para esta queda, contou Barry Gumbiner, que lidera as pesquisas da companhia.

O tratamento é interrompido quando a taxa chega a 25 ou menos.

— Não há muita experiência no tratamento de pessoas com níveis tão baixos de LDL — ponderou Gumbiner.

Pesquisadores ainda querem saber quais as consequências para a saúde das pessoas que passam a ter níveis tão baixos de colesterol. 

De acordo com Daniel Rader, especialista da Universidade da Pensilvânia, além de consultor do Sanofi, quanto menor o nível de LDL, melhor.

— Se eu tivesse doença coronária, com certeza gostaria de conduzir o meu LDL para bem abaixo dos 50 — disse Rader.

Cauteloso, Gibbons ressalta que os estudos para avaliar os efeitos da forte queda de LDL ainda estão em curso.

Fonte: O Globo