terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Medicamentos que não curam, só amenizam

“O número de prescrições só aumenta e, consequentemente, os efeitos colaterais também, sem que as causas sejam tratadas”, diz o psiquiatra Altenfelder.
“Remédios psiquiátricos nenhum curam nada.

A causa fica latente. Quando vivia situações de alucinações, a medicação apenas diminuía minhas funções cerebrais, ou seja, funcionava como uma camisa de força química.

O medicamento era para tratar a depressão grave que desenvolvi trabalhando em telemarketing somado a outros problemas de identidade.
Desde então, passei fazer uso de Fluoxetina, Rivotril, Risperidona e Sertralina.
E para piorar a situação, a cada medicamento consumido, passei a me sentir, na verdade, um zumbi.”

“Parecia que eu, não era eu. Passei a ficar prostrado por causa da medicação. Era pior. Saia às ruas e sentia umas coisas estranhas que não sei explicar. No trabalho, era só pressão e cobrança por resultados. Problemas de clientes chegavam de caminhão. Sem falar os preconceitos que enfrentei em casa, quando assumi minha homossexualidade.”

O drama que segue é contado por um jovem goiano e estudante de Psicologia, de 24 anos, à reportagem do Diário da Manhã, mas que insistiu para não ser identificado. Há um ano, segundo ele, fazia uso de remédios psiquiátricos, porém, optou por interromper o tratamento, assim que, percebeu estar ficando ainda mais prostrado e com desejos estranhos.

“Tive muito medo de parar com as doses do remédio. Eu não sabia se tirasse o remédio, minha mente voltaria ao estado que já foi um dia. Atualmente, não sei como está minha mente. Mas um conselho eu dou para quem toma remédio psiquiátrico, tem que se esforçar para superar seus fantasmas, pois quanto mais seus pensamentos aceleram, mas remédio será oferecido. Os médicos preferem dose mais alta do que a dose mais baixa”, relata o jovem.

Especialistas

O psiquiatra Luis Altenfelder Silva Filho, autor do livro Doença Mental, um Tratamento Possível concorda que as medicações que afetam o sistema nervoso podem causar tais efeitos, e critica a presença excessiva de medicamentos na relação paciente-psiquiatra. “O número de prescrições só aumenta e, consequentemente, seus efeitos colaterais também, sem que as causas sejam tratadas.”

Altenfelder acredita que o distanciamento paciente-psiquiatra seja motivado pela influência da psiquiatria biológica norte-americana, que faz a consulta girar só em torno da receita médica. “Tem que se discutir a receita, mas também os efeitos dos remédios e os aspectos emocionais, sociais e profissionais da vida do paciente.”

Sobre a questão da influência norte-americana, segundo o jornalista e advogado Roberto Amado, em um artigo publicado no DM, o assunto repercutiu na reformulação do Manual de Estatísticas e Diagnósticos (DSM), da Associação Psiquiátrica Americana (APA), a publicação mais importante da psiquiatria, que lista diferentes categorias de transtornos mentais e critérios para diagnosticá-los. Um grupo de trabalho da instituição, conduzido por Lisa Cosgrove, eticista da Universidade Harvard, concluiu que 69% dos pesquisadores responsáveis pela edição do manual estão comprometidos com a indústria farmacêutica.

Alerta

“Há uma tendência a catalogar os comportamentos e afetos humanos e através de um conluio sutil, talvez não tão consciente, entre a indústria farmacêutica e a psiquiatria, e desenvolver uma medicação adequada a cada um deles”, diz o pediatra Daniel Becker, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das vozes mais ativas contra a prescrição crescente de medicação psiquiátrica.

Muitos médicos denunciam o que se chama de “medicalização da vida” – uma tendência de tratar com remédios qualquer tipo de emoção humana. De acordo com o jornalista Amado, há um comportamento generalizado, às vezes dos próprios pacientes, em recorrer aos antidepressivos para tratar qualquer tipo de sintoma “da alma”.

Para muitas pessoas, aparições como enxaqueca, obesidade, fibromialgia, ejaculação precoce, síndrome da fadiga crônica e até tristezas que poderiam ser consideradas absolutamente comuns, não são encaradas desta forma. No entanto, conforme Amado, essa tendência seria, para alguns médicos, o fruto de uma relação promíscua entre psiquiatras e laboratórios, chamada de biopolítica, ou, de maneira mais dura, “farmacopornografia”.

Lucro

No Brasil, entre 2005 e 2009, ocorreu um aumento significativo de vendas de medicamentos antidepressivos, estes alcançaram 44,8% de comercialização, ou seja, de R$ 647,7 milhões para R$ 976,9 milhões de medicamentos vendidos. Já de 2000 para 2004, houve uma crescente de 1020% de vendas de caixas de metilfenidato, estimulante usado no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Em 2012, o mercado brasileiro de antidepressivos faturou R$ 1,85 bilhão.

Segundo o jornalista e advogado Amado, a indústria dos antidepressivos é uma das mais prósperas no Brasil. Aqui, a venda da medicação subiu 48% nos últimos cinco anos, conforme a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com base em dados do IMS Health, instituto que faz auditoria do mercado farmacêutico. Em 2012, foram vendidas 42,33 milhões de caixas, o que significa que, em média, um em cada cinco brasileiros consumiu uma caixa por ano.

Por isso, o tratamento dos sujeitos em sofrimento psíquico deve ser conduzido de modo que não ocasione em uma hipermedicação. Os dados sobre faturamento indicam que isso está ocorrendo no Brasil. No entanto, a medicalização é apenas uma forma de neutralizar os sintomas do sujeito e não uma forma de cura, uma vez que não levam em consideração seus aspectos sociais e subjetivos.

Neste contexto, Roberto Amado conclui que se o indivíduo está com problemas emocionais, deve refletir bem se é o caso de consultar um psiquiatra: “as chances de o paciente sair da consulta com uma receita de antidepressivo são enormes, quase inevitáveis. Não necessariamente porque precise disso”, ressalta.

Ainda de acordo com Amado, “é verdade que os antidepressivos são fundamentais para o tratamento de quem realmente sofre da doença. Calcula-se que um milhão de pessoas se suicidam por ano em todo o mundo, o que poderia ser evitado com a medicação correta. Mas não se pode curar com medicamentos aquilo que é da natureza humana. Está na hora de deter a farmacopornografia”, finaliza o jornalista.

Fonte: Diário da Manhã Online 

Um comentário:

  1. Doença mal diagnosticada, prescrição mal elaborada, dispensação sem a devida atenção farmacêutica e assistência farmacêutica deficiente só beneficia a Ind. Farmacêutica.

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