terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Osteoporose: repensando a suplementação de cálcio

A maior parte dos pacientes preferem pensar que todos os problemas de saúde podem ser resolvidos com um medicamento, uma pílula, um suplemento... E, certamente, muitos são, especialmente doenças infecciosas que sucumbem aos antibióticos, antifúngicos e, cada vez mais, aos antivirais.

Mas, mesmo em meio ao grande avanço farmacológico, muitas doenças que continuam a atormentar as pessoas, apesar dos melhores esforços da indústria farmacêutica, ainda não podem ser tratadas assim: apenas com uma pílula. “Aqui, encaixam-se a maioria dos problemas crônicos de saúde, relacionados como o estilo de vida, especialmente com o que comemos e bebemos e se praticamos ou não exercícios físicos. A osteoporose é uma dessas condições cada vez mais prevalentes e onerosas. Embora existam medicamentos para estancar a perda de massa óssea e tratar as fraturas debilitantes que, muitas vezes, resultam das quedas originadas pela doença, os medicamentos são caros, difíceis de administrar e, por vezes, têm efeitos colaterais que podem ser piores do que a doença que se destinam a combater”, afirma o ortopedista Caio Gonçalves de Souza, médico do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Isso faz com que a prevenção seja a opção de custo-benefício preferencial. Porém, muitos dos esforços para prevenir esta doença óssea se concentraram em uma pílula, ou seja, nos suplementos de cálcio, mineral responsável pela formação óssea na juventude que deve ter seu nível mantido durante toda a vida. “Mas, assim como muitas outras pílulas, consideradas inócuas, a segurança e a eficácia de suplementos de cálcio na prevenção da perda de massa óssea está sendo questionada por alguns pesquisadores”, diz o médico.

Vários estudos têm tentado relacionar os suplementos de cálcio ao aumento do risco de ataques cardíacos e derrames. Muitos não encontraram efeito algum, dependendo da população estudada e de quando a suplementação de cálcio foi iniciada.

“A controvérsia deixou inúmeras pessoas, principalmente as mulheres na pós-menopausa, se perguntando se devem tomar um suplemento de cálcio ou não. Em meio a diversos estudos e pesquisas em andamento, um fato indiscutível é que a melhor fonte de cálcio para ossos resistentes é a dieta e não os suplementos. Mas são poucos os adultos, adolescentes e crianças que consomem alimentos lácteos ou vegetais em quantidade suficiente para obter a ingestão recomendada deste mineral essencial”, observa Caio de Souza, que também é professor de Ortopedia da Faculdade de Medicina na Uninove.

O consumo de leite vem caindo constantemente nas últimas quatro décadas, sendo em grande parte suplantado por refrigerantes e bebidas açucaradas. Estas bebidas estão agora sob fogo cruzado, acusadas de serem causadoras de obesidade e diabetes tipo 2. Os refrigerantes também contém muito sódio, que compete com o cálcio para ser absorvido no intestino, levando a uma menor absorção deste último. A partir dos 30 anos, quando a perda óssea começa a ultrapassar a formação óssea, homens e mulheres passam a consumir menos de um copo de leite por dia, tornando a perda mais acentuada.

O iogurte, que é ainda melhor fonte de cálcio do que o leite fluido, alcançou uma popularidade sem precedentes nos últimos anos, mas poucos o consomem mais do que uma vez por dia, o que não é suficiente para satisfazer as necessidades alimentares. O frozen yogurt, que ameaça suplantar o sorvete como sobremesa gelada mais popular, tem cerca de metade da quantidade de cálcio do que o iogurte normal e apenas um pouco mais do que o sorvete. E ambos – tanto o frozen quanto o sorvete –são muito mais calóricos do que o leite desnatado.

Os outros alimentos ricos em cálcio são o tofu (quando preparado com cálcio); leite de soja fortificado com cálcio e leite de arroz; salmão e sardinha em lata (mas só se comer os ossos); amêndoas; couve; e brócolis. “Mas poucas pessoas consomem o suficiente destes alimentos, todos os dias, para obter o cálcio que precisam”, afirma o ortopedista.

Importância do cálcio

O cálcio tem várias funções no nosso organismo, tais como auxiliar na contração muscular, nas sinapses (ligações) entre os neurônios, no mecanismo de aderência das células, dentre outras. Quando o corpo não ingere cálcio suficiente em determinado dia para todas estas funções, ele se utiliza da reserva deste mineral que todos nós temos nos ossos. “Logo, retirar o cálcio dos ossos para utilizá-lo em outros locais do corpo é perfeitamente normal. O que não é esperado é que o corpo fique décadas retirando o cálcio dos ossos porque não há absorção suficiente dele devido a erros de alimentação. Isto levará a perda da reserva óssea e a fratura dos mesmos. É justamente para manter esta reserva estável durante a vida que se começou a fazer a suplementação, já que é mais fácil tomar um comprimido do que fazer uma dieta adequada”, explica o ortopedista.

O cálcio protege o sistema cardiovascular, ajuda a reduzir a pressão arterial e o risco de hipertensão, um dos principais fatores para as doenças cardíacas. Um estudo (The Iowa Women’s Health Study) relacionou uma maior ingestão de cálcio por mulheres na pós-menopausa com uma redução do risco de mortes por doenças cardíacas. Depois disto, a controvérsia sobre os suplementos de cálcio surgiu quando uma metanálise de 15 estudos realizados por Mark J. Bolland, da Universidade de Auckland, descobriu que quando o cálcio foi tomado sem a vitamina D (que aumenta a absorção de cálcio), os suplementos aumentaram o risco de ataque cardíaco em cerca de 30%. Bolland, em seguida, analisou novamente dados do the Women’s Health Initiative e encontrou um risco 24% maior de ataque cardíaco entre as mulheres que tomaram cálcio com ou sem a vitamina D. Neste caso, o aumento do risco ocorreu apenas entre as mulheres que passaram a tomar o suplemento de cálcio a partir do início do estudo e que não tomavam o suplemento antes do estudo começar.

No entanto, em dezembro de 2012, um relatório publicado on-line pela Osteoporosis International, informou que entre 36.282 mulheres na pós-menopausa que participaram do estudo the Women’s Health Initiative , aquelas que tomaram suplementos de 1.000 miligramas de cálcio junto com 400 unidades internacionais de vitamina D sofreram uma redução de 35% do risco de fratura de quadril e nenhum aumento de ataques cardíacos durante um período de sete anos de acompanhamento.

Um outro estudo, publicado on-line no JAMA Internal Medicine, descobriu que entre 388.229 homens e mulheres, inicialmente com idades entre 50 e 71 anos, acompanhados por uma média de 12 anos, o suplemento de cálcio aumentou o risco de morte cardiovascular em 20% entre os homens, mas nas mulheres não. O aumento do risco foi observado apenas entre os fumantes.

Uma explicação possível para essa relação, segundo os investigadores do JAMA, é que o nível sanguíneo de cálcio aumenta após a utilização de um suplemento, porém ele se mantém inalterado, após a ingestão de alimentos ricos em cálcio. Na verdade, este aumento é uma complicação conhecida entre os pacientes com doença renal que tomam suplementos de cálcio. “Isto poderia explicar porque alguns pacientes que usam suplementação de cálcio aparentemente têm maior risco de doenças cardíacas, ao passo que pacientes com uma dieta rica em cálcio não apresentam o mesmo risco”, explica o Dr. Caio de Souza.

Diante de tantas pesquisas e de tantos resultados díspares, os pesquisadores concordam que, devido à utilização generalizada de suplemento de cálcio, mais estudos são necessários para esclarecer possíveis riscos e benefícios dessa prática, além de indicar para quem ela é mais indicada. “Lendo estes estudos, o que nos parece é que a relação aparente entre o cálcio e as doenças cardiovasculares é um viés ou uma coincidência estatística. Porém, até que novas informações estejam disponíveis, os interessados em preservar a saúde óssea devem apostar numa dieta rica em cálcio e na prática de exercícios físicos, como caminhada, corrida e musculação”, recomenda o ortopedista.

Além disso, não custa nada lembrar o posicionamento da National Osteoporosis Foundation, que afirma que os resultados dos estudos atuais e recomendações sobre os suplementos de cálcio "se aplicam a mulheres com osteoporose densitométrica ou que já sofreram fraturas, com mais de 50 anos de idade (ou após a menopausa) ou para grupos específicos que apresentem fatores de risco para fratura." “Para esses grupos, os benefícios dos suplementos de cálcio superam em muito quaisquer riscos”, observa o médico.

Fonte: Dikajob

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