quinta-feira, 12 de março de 2015

Novos medicamentos biológicos aliviam sintomas de Retocolite

Uma nova classe de medicamentos é uma das opções para um tratamento mais eficaz e duradouro para quem sofre de retocolite ulcerativa. O grande avanço está nas drogas biológicas, que agem diretamente no bloqueio das principais células inflamatórias responsáveis por estimular outras, o que só aumenta o problema. 

A retocolite é considerada uma doença inflamatória dos intestinos (DII). É crônica e não tem cura. Caracteriza-se pela formação de feridas que comprometem geralmente o intestino grosso e o reto e afeta jovens na faixa de 15 a 35 anos, dos sexos feminino e masculino, embora existam diagnósticos mais tardios também. 

Ainda não existem estudos que confirmem a causa oficial desse tipo inflamação, mas há hipóteses baseadas em possíveis defeitos genéticos dentro do sistema imunológico intestinal. Segundo o médico Sender Miszputen, responsável pelo Ambulatório de Doenças Inflamatórias Intestinais da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é observada predisposição hereditária, tanto que não é incomum constatar o mesmo problema entre pais, irmãos e primos. 

"Possivelmente, por ação de produtos bacterianos da própria flora do intestino, ocorre uma resposta inadequada da imunidade local e que deveria ser uma defesa contra as bactérias. Pelo erro genético, instala-se uma inflamação permanente na parede do cólon, provocando lesões nos seus diferentes segmentos", explica o médico, que também é presidente do Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil (GEDIIB).

Com o novo medicamento, as drogas atuam na raiz do problema. Elas conseguem bloquear uma substância prejudicial produzida por algumas células inflamatórias. "A prática mostra que essa classe de medicamentos traz, para a maioria dos doentes que a utiliza, maior eficácia na reversão dos sintomas e um tempo de remissão mais prolongado", comenta Miszputen.

O medicamento é feito a partir de um anticorpo humano chamado "adalimumabe" e é indicado para o tratamento de retocolite ulcerativa nos Estados Unidos e países europeus. A droga já é liberada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para o tratamento da Doença de Crohn e alguns tipos de artrite. Agora o Brasil, segue o mesmo caminho e inclui mais uma indicação para o uso do anticorpo.

No entanto, apesar da aprovação da Agência Nacional de Saúde (Anvisa) para incluir a indicação da droga (que é de alto custo) para o tratamento de retocolite, as farmácias populares ainda não a disponibilizam. Uma opção é o ingresso de uma ação no Ministério Público para facilitar o acesso ao remédio.

Aplicação

O cirurgião geral João Gomes Netinho, especialista em doenças do aparelho digestivo, cólon, reto e ânus e professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), explica que há duas opções de administração do medicamento biológico. Uma delas é a aplicação subcutânea, feita a cada 14 dias, e a outra, com soro, de oito em oito semanas. 

A nova droga é uma opção acolhedora em casos considerados graves ou quando não há avanços com medicamentos tradicionais, como os anti-inflamatórios de ação intestinal e imunossupressores, como as cortisonas. Independentemente de qual medicamento, é imprescindível que o tratamento não seja interrompido. "Com tratamento adequado, pode-se manter a qualidade de vida do paciente e esperar uma evolução sem complicações", completa Miszputen.

Caso de saúde pública

No Brasil, ainda não existem dados estatísticos sobre quantos brasileiros têm retocolite, mas o que médicos afirmam é que os casos estão aumentando. Em Rio Preto, há tratamento especializado disponível no ambulatório do Hospital de Base (HB), informa o cirurgião geral e especialista João Gomes Netinho. De acordo com o Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil (GEDIIB), 30% dos casos de Doenças Inflamatórias do Intestino são diagnosticados antes dos pacientes completarem 20 anos. 

"O que sabemos é que os números estão ficando significativos. Podemos dizer que já é uma caso de saúde pública", afirma João Gomes Netinho. Isso porque a retocolite ulcerativa compromete consideravelmente a qualidade de vida de pessoas que estão ativas no trabalho e na vida social. "E elas acabam ficando muito deprimidas, até porque pode afetar outras áreas do corpo, como as articulações", conta o cirurgião especialista no aparelho digestivo. 

Fases da Retocolite

Leve: quadro clínico discreto, com leve dor abdominal, alteração intestinal (diarreia) e sangramento
Moderada: quadro clínico mais intenso, com três a sete evacuações com sangue e muco. Pode ser necessária a internação. Outras partes do corpo também são afetadas, como os olhos e as articulações
Grave: quadro clínico que exige maior atenção, pois há índice de mortalidade de 20% a 30%. Evacuações caracterizadas por líquidos e sangue são constatadas de 30 a 40 vezes ao dia. A internação é necessária
Fonte: João Gomes Netinho, cirurgião geral e especialista no aparelho digestivo

Diagnóstico

Além dos sintomas característicos em cada fase, o diagnóstico de retocolite ulcerativa é confirmado com uma colonoscopia - não recomendada na fase aguda da doença, afirma o cirurgião e especialista no aparelho digestivo João Gomes Netinho. “É o principal exame, mas também há outros (já que a retocolite interfere no organismo), como o hemograma e os marcadores de grau da inflamação, como o PCR”, informa

Cura Questionável

A retocolite ulcerativa é considerada uma doença crônica e sem cura. No entanto, o médico Sender Miszputen, de São Paulo, afirma que ela pode ser conquistada, mas por meio de um método cirúrgico que costuma ser evitado. “Com a remoção de todo o cólon e reto é alcançada a cura, ainda que à custa de uma cirurgia relativamente mutilante”, diz

Fonte: Diário Web
Foto: drauziovarella.com.br

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