segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Avanços no combate ao Colesterol

Surgem novas alternativas de combate ao colesterol. Tratam-se dos inibidores de CSK9, anticorpos que agem sobre a proteína que reduz a capacidade do fígado de retirar o LDL, o chamado colesterol ruim, do sangue. O Food and Drug Administration (FDA), órgão governamental norte-americano responsável pelo controle de medicamentos, e a Europa aprovaram recentemente o uso de substâncias do tipo. Elas devem beneficiar principalmente quem tem a hipercolesterolemia familiar (HF), doença causada por uma alteração genética que leva ao aumento dos índices de colesterol já na infância.

Esses inibidores reduzem de 40% a 65% o mau colesterol e não apresentarem fortes adversidades. “É grande o impacto da chegada desses medicamentos, por enquanto nos Estados Unidos e na Europa. Vejo essa nova classe como uma revolução no tratamento do colesterol alto. Estamos falando da possibilidade de um ganho adicional em cima daquilo que conseguíamos com o que havia de mais potente no mercado. Além disso, têm menos efeitos colaterais, como a dor muscular”, detalha Raul Dias Santos, diretor da Unidade de Lípides do Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Incor/HC/FMUSP).

Segundo Marcus Vinícius Bolívar Malachias, presidente eleito da Sociedade Brasileira de Cardiologia, isso ocorre porque os inibidores tornam os receptores ativos e, então, capazes de captar e metabolizar o colesterol ruim, o que não ocorre em algumas pessoas com hipercolesterolemia grave, quando o excesso dessa gordura fica na circulação, acelerando a aterosclerose, o acúmulo de placas de gordura nas artérias. “De 70% a 80% dos casos de colesterol elevado podem ser controlados com dieta, exercícios e estatinas, mas há casos graves, em que este tratamento convencional não resolve plenamente a situação. Nesses, os novos medicamentos atuam de forma precisa”, comemora.

Um dos empecilhos do tratamento promissor é o preço. Segundo Santos, a terapia com as injeções quinzenais de alirocumabe, a substância aprovada nos Estados Unidos, custa mais de U$$ 10 mil por ano. A Europa liberou o uso da evolocumabe, em vias de ser aprovado também pelo FDA. Uma possível terceira opção, o bococizumabe, ainda está em fase de testes laboratoriais. Pesquisas também indicam que os inibidores de CSK9 têm grande potencial para reduzir os riscos de ataques cardíacos e mortes. Esses efeitos, porém, devem ser referendados no fim de 2017, previsão para o fim de um grande estudo clínico envolvendo mais de 18 mil voluntários.

Questão de hábitos

Mais de 60% dos brasileiros têm colesterol alto, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Tal condição representa risco aumentado para complicações cardiovasculares, incluindo o infarto. O problema normalmente é consequência de hábitos pouco saudáveis, como dieta desequilibrada e sedentarismo. Mas, em cerca de 10%, a situação é causada pela HF, que pode ser de dois tipos.

Na forma heterozigótica, que atinge uma em cada 200 pessoas, o colesterol é duas a três vezes acima do normal. Na homozigótica, pode ser quatro a cinco vezes maior — condição que atinge uma em cada 300 mil pessoas. “São pacientes que infartam por volta dos 13 anos de idade”, explica Marcus Vinícius Bolívar Malachias. Os sinais clínicos da HF são exatamente esses valores muito elevados do LDL: acima de 200 mg/lg (heterozigotica) ou mais de 500 mg/dl (homozigótica). Outro indício é o acúmulo de colesterol nas artérias, casos de pacientes com aterosclerose e doença cardiovascular prematura.

A HF é responsável por 5% a 10% dos casos de doença arterial coronariana (DAC), quando placas se acumulam nas artérias que fornecem sangue ao coração. “Quem tem hipercolesterolemia familiar apresenta um risco 13 vezes maior de ter um problema cardíaco. Como é genética, uma em cada duas pessoas da família tem a doença. São pessoas que já nascem com colesterol alto”, detalha Raul Dias Santos.

A HF determina uma situação adversa, na qual mudanças nos hábitos de vida não conseguem alterar o curso da doença. Mas a imensa maioria da população com colesterol alto, mais de 90%, pode se beneficiar de melhorias na dieta e mais atividade física. “É um contingente de pessoas que, mesmo sabendo dos riscos, não faz o tratamento adequado por aversão a tomar medicamento ou por acreditar no discurso irresponsável de que ‘colesterol é uma invenção da indústria farmacêutica’”, alerta Marcus Bolívar.

Personagem da notícia

Aos 35 anos, Carlos Cézar, hoje com 56, sofreu um infarto. Até aquele momento, ele nunca havia feito um exame de colesterol e descobriu, da pior forma possível, que esse tinha sido o causador do episódio. Logo depois, uma tia, com cerca de 50 anos, também infartou, mas não sobreviveu. Carlos saiu do hospital com orientações de mudanças na dieta e cuidados com a saúde, que incluem medicamentos para baixar o colesterol. Mas ele não tolerou a estatina, que lhe causou fortes dores musculares. Um outro tipo de medicação deu mais certo; mesmo assim, os índices continuam altos, em torno de 250mg/dl, já tendo chegado a 340mg/dl. Carlos Cézar tem hipercolesterolemia familiar. Nesse momento, luta na Justiça para conseguir que o governo pague o medicamento mais indicado para o seu problema. “Tenho amigo que não leva o colesterol a sério, não acredita que ele pode matar. Quando come um tira-gosto, enxuga a fritura no guardanapo, e acha que isso basta”, lamenta.

Para saber mais

Teste gratuito

Níveis de LDL acima de 190mg/dl em adultos e acima de 160mg/dl em crianças combinados com história familiar de colesterol alto e problemas cardíacos antes dos 55 anos são sugestivos de hipercolesterolemia familiar (HF). Outros sintomas do problema são depósitos de colesterol em volta dos olhos, que provocam uma mancha amarela, nodulações nos tendões das mãos e cotovelos, além do tendão de Aquiles espessado. A confirmação do diagnóstico, contudo, só é possível com teste genético.

O Incor oferece o teste gratuitamente, mesmo para quem não mora em São Paulo. Para isso, a pessoa deve entrar em contato com o programa Hipercol Brasil, por meio do site www.hipercolesterolemia.com.br. É preciso enviar o resultado dos últimos exames de colesterol. Se a equipe de especialistas suspeitar de um possível caso, enviarão, pelos Correios, um kit para realização do teste, feito a partir da coleta de uma gota de sangue em papel de filtro específico. O DNA é extraído dessa amostra para identificação de alguma alteração genética.

Fonte: Correio Braziliense

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