sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Estudo explica como a infecção da malária favorece a formação de linfomas

A infecção crônica por Plasmodium falciparum (um protozoário parasita ligado à malária) é epidemiologicamente associada com linfoma de Burkitt, um câncer das células B maduras caracterizado pela translocação cromossômica entre os oncogenes c-myc e Igh. 

Embora raro em âmbito mundial, o linfoma de Burkitt tem uma alta incidência entre os indivíduos com imunodeficiência e em regiões endêmicas para malária, principalmente na África. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, a maioria dos casos de malária se concentra na região Amazônica (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), mas há também notificações em outras regiões do país.

Os mecanismos por trás desta associação, até então desconhecidos, foram detalhados em artigo publicado na prestigiada revista científica norte-americana Cell, por cientistas da Rockefeller University, do National Cancer Institute (NCI), nos Estados Unidos; do Imperial College London, no Reino Unido e do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. No estudo, liderado pelo Investigador Principal da Rockefeller University – Laboratório de Imunologia Molecular, Michel C. Nusswenzweig, investigou a relação entre a doença parasitária (malária) e um novo mecanismo genético envolvido no crescimento e desenvolvimento de linfomas.

Para tanto, foi induzida, em laboratório, a infecção crônica por malária em camundongos. A infecção desse parasita levou à expansão prolongada dos centros germinativos (GCs), que são compartimentos únicos em que as células B sofrem uma rápida expansão clonal e ativam o gene AID (Activation-induced cytidine deaminase), um gene que produz mutações nas moléculas de DNA e RNA. Como resultado, o DNA ficou exposto aos danos generalizados causados por esse gene, levando a translocações cromossômicas. Desta forma, a infecção da malária favorece a proliferação das células B doentes.

“Quando o camundongo está infectado com o parasita da malária, ocorre uma exposição maior das células às mutações causadas pelo gene AID. Esse gene é essencial para a diversificação dos anticorpos, mas ao se tornar instável, provoca lesões fora de sua região de ação (IgH) que, por sua vez, resulta em translocações e, consequentemente, a transformação de células saudáveis em malignas”, explica o Bioinformata Israel Tojal da Silva, chefe do Laboratório de Biologia Computacional e Bioinformática do CIPE/A.C.Camargo Cancer Center, um dos coautores do estudo e pesquisador adjunto da Rockefeller University.

Israel Tojal foi responsável pelas análises de Bioinformática que permitiram detectar e quantificar as translocações, bem como análises subsequentes a partir dos dados de sequenciamento de DNA. Dentre os resultados, foi observado que as translocações ocorrem em todos os cromossomos, preferencialmente em regiões gênicas e, em genes altamente expressos.

“No modelo estudado, demonstramos que a infecção do parasita induz a uma instabilidade genômica generalizada, predispondo as células B a adquirirem translocações em genes chaves, incluindo o c-myc, o que reflete as características moleculares e fenotípicas do linfoma de Burkitt.”, explica Israel.

O estudo Plasmodium Infection Promotes Genomic Instability and AID-Dependent B Cell Lymphoma pode ser lido clicando aqui. http://www.cell.com/cell/pdf/S0092-8674(15)00896-X.pdf

Fonte: LabNetwork 

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