quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pesquisadores da Unifei-Itabira testam compostos inorgânicos que podem revolucionar tratamento de doenças

Uma pesquisa desenvolvida dentro do campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), em Itabira, pode ser o primeiro passo para uma revolução em tratamento de doenças no mundo inteiro. Coordenado pelo cientista e professor Francisco Moura Filho, o estudo tem como propósito criar, a partir de conhecimentos em nanotecnologia, um medicamento inteligente.


Ao contrário do que alguns podem pensar, não se trata de medicamento que cura todo tipo de enfermidade. Tem esse nome porque sua missão é agir diretamente na doença, com pouco ou nenhum efeito colateral e resultados muito mais eficazes.

Segundo Francisco, os medicamentos disponíveis no mercado para curar doenças patogênicas, aquelas que matam, são constituídos basicamente de compostos orgânicos. O que está sendo desenvolvido no laboratório da Unifei é uma série de compostos inorgânicos, chamados tecnicamente de materiais cerâmicos. Eles têm propriedades bactericidas e capacidade de eliminar micro-organismos patogênicos, aqueles que causam as doenças.

“Sabemos, por exemplo, que a prata é um excelente bactericida. Podemos fazer compostos químicos que, quando são juntados a outros metais, apresentam propriedades diferentes. Estamos em uma área que é muito ampla, a área da nanotecnologia. E ela tem sido bastante explorada para infinitas aplicações, dentre elas, a farmacologia”, explica o pesquisador.

“Locomotiva”

As pequenas estruturas inorgânicas pesquisadas na Unifei se assemelham a um corpo rígido, pouco quebrável a dificilmente solúvel. Essas estruturas, por serem muito pequenas, são capazes de levar medicamento pela corrente sanguínea até a doença sem “despejá-lo” pelo caminho. “Imagine um trem com vários vagões nanométricos. Essa locomotiva é capaz de carregar uma proteína, uma cadeia de medicamento ou um antibiótico até a doença. Por isso são chamados de remédios inteligentes”, diz o líder da pesquisa.

Ao levar quantidade suficiente - nem mais, nem menos –, a “locomotiva” também evita que o paciente sofra os indesejados efeitos colaterais causados pelas “sobras” de medicamento no corpo. Segundo o cientista, no caso de um câncer, que tem em seu interior uma temperatura maior que a do corpo, é possível desenvolver uma estrutura nanométrica que se desfaz quando chega dentro da ferida, deixando lá o mediacmento. “É um vagão despejando mineriozinho”, exemplifica.

Até chegar às farmácias

A pesquisa começou há cerca de seis meses e ainda tem muito o que ser feito. Na visão do professor-doutor, pelo menos dez anos se passarão até os remédios inteligentes chegarem às farmácias. Até lá existe muito teste e trâmite burocrático a ser superado.

Francisco conta que outras universidades do Brasil e do exterior também pesquisam o assunto e buscam suas conclusões. O Instituto Nacional de Nanotecnologia, do qual faz parte, é um deles. Como toda pesquisa científica, nunca se sabe ao certo o que será descoberto a seguir. “A ciência é tão dinâmica que não se pode prever o que acontecerá amanhã. Às vezes o pesquisador está dentro do laboratório e faz uma descoberta que jamais esperava”, diz o professor, que também é parceiro do Instituto de Nanotecnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), em São Paulo.

Antibióticos

A itabirana Carla Junia Santos, 29 anos, faz parte da equipe de pesquisa do professor. Doutoranda em Química pela Unifei, ela se graduou na Funcesi e fez mestrado na UFMG. Segundo Carla, a pesquisa partiu da ideia de desenvolver medicamentos que pudessem ser usados como antibióticos. “Constantemente vemos alguma reportagem falando das bactérias super-resistentes, aquelas que não respondem aos antibióticos”, explica.

Os antibióticos, assim como outros medicamentos, são compostos de substâncias orgânicas. A ideia de desenvolver os compostos inorgânicos tem como objetivo suprimir a resistência destas bactérias. “Primeiro a gente trabalha com cultura de bactérias super-resistentes, desenvolvidas para serem trabalhadas em laboratório. Depois passamos para a experimentação animal, geralmente em roedores. Se os resultados forem positivos, o próximo passo são estudos clínicos, conforme os protocolos exigidos”, conta.

Carla diz que os compostos desenvolvidos na Unifei podem ser usados até na fabricação de desinfetantes para ambientes hospitalares. E as aplicações não param por aí. Como diz doutor Francisco, de repente se está fazendo um teste no laboratório e... Eureca!

Por: Sérgio Santiago
Matéria publicada na edição 271 da revista DeFato


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