quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Os primeiros boticários

As terapias com o uso de vegetais e minerais existem a tanto tempo quanto os seres humanos. As doenças humanas e o instinto de sobrevivência têm levado a sua descoberta ao longo das épocas.

O uso de terapias, mesmo que bastante rústicas, começou antes dos registros históricos, graças ao instinto do homem primitivo de aliviar a dor de uma lesão colocando-a em água fria, empregando folhas frescas ou protegendo-a com lama. 

Por meio dessas experiências, os seres humanos aprenderam que determinadas terapias eram mais eficazes que outras e, a partir desses achados, surgiu a terapia medicamentosa.

Entre vários povos, acreditava-se que as doenças fossem causadas pela entrada de demônios e espíritos malignos no organismo. O tratamento naturalmente envolvia a retirada dos intrusos sobrenaturais.

A partir de registros antigos, sabe-se que os principais métodos de remoção de espíritos consistiam em encantamentos espirituais, aplicação de materiais repugnantes e administração de ervas e plantas.

Antigamente, nas tribos, homens e mulheres que conheciam as qualidades curativas das plantas, habilidade adquirida com a experiência ou herdada de antepassados, eram chamados para tratar doentes e lesionados e preparar produtos medicamentosos.

Foi a preparação desses produtos que originou a arte do boticário.
A arte do boticário sempre foi associada ao mistério; acreditava-se que os práticos tinham alguma conexão com o mundo dos espíritos e, dessa forma, intermediavam o visto e o não-visto. A crença de que poções medicamentosas tinham poderes mágicos significava que sua ação, para o bem ou para o
mal, não dependia unicamente das suas qualidades naturais. A compaixão de um deus, a realização de cerimônias, a ausência de espíritos malignos e a intenção do dispensador eram individual e coletivamente necessárias para torná-la eficaz sob o ponto de vista terapêutico. Por isso, o boticário tribal era temido, respeitado, acreditado, confiado, algumas vezes desconfiado, admirado e reverenciado. Por meio de suas poções, acreditava-se que os contatos espirituais fossem feitos, sendo a cura ou o fracasso da terapia dependente desse contato.

Ao longo da história, o conhecimento dos medicamentos e de suas aplicações era traduzido em poder. No épico de Homero, o termo pharmakon (Gr.), que deu origem à palavra farmácia, conota uma poção, remédio ou droga que podem ser usados para o bem ou para o mal. Muitos dos fracassos dos boticários tribais ocorriam pelo emprego de remédios impotentes ou inapropriados, sub ou superdosagem, ou mesmo por envenenamento.

O sucesso poderia ser atribuído a experiência, mera coincidência, seleção adequada da terapia, poder curativo natural e efeitos-placebo não-relacionados à terapia, ou seja, efeitos obtidos em decorrência de fatores psicológicos e não biológicos.

Mesmo nos dias de hoje, a terapia com placebo é empregada com sucesso no tratamento de pacientes, sendo rotineiramente empregada na avaliação clínica de novos medicamentos, em que a resposta dos indivíduos tratados com o medicamento real é comparada com aquela produzida após a administração do placebo.

Antigamente a arte do boticário combinava-se com a função de sacerdote, e, nas civilizações antigas, o sacerdote-mágico ou sacerdote-médico era visto como o curador do corpo e da alma. A farmácia e a medicina eram indistinguíveis, pois sua prática foi combinada à função de líder religioso tribal.

Referência: Introdução aos Fármacos, Formas Farmacêuticas e Sistemas de Liberação


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