domingo, 15 de novembro de 2015

Pela primeira vez, EUA aprovam vírus para tratar câncer

O órgão americano responsável pelo controle de alimentos e medicamentos (FDA) aprovou uma nova droga para o tratamento do câncer que pode abrir caminho para novas terapias. Indicado para tratar o melanoma, responsável pela morte de aproximadamente 10 mil pessoas anualmente nos EUA, o Imlygic não demonstrou resultados significativos em termos de sobrevida dos pacientes. Porém, representa um marco por ser o primeiro medicamento feito a base de um vírus aprovado comercialmente para o combate da doença.

— Melanoma é uma doença séria, que pode avançar e se espalhar por outras partes do corpo, onde se torna difícil de tratar — disse Karen Midthun, diretora do Centro para Avaliação Biológica e Pesquisas da FDA. — Essa aprovação fornece aos pacientes e médicos um novo tratamento para o melanoma.

O Imlygic é uma variação do vírus do herpes modificado geneticamente, indicado para casos em que o câncer não possa ser removido completamente por cirurgia. O vírus vivo é injetado diretamente nas lesões, onde se replica no interior das células cancerígenas, provocando a sua ruptura. O tratamento consiste de uma primeira injeção, seguida por uma segunda dose três semanas depois, e manutenção a cada duas semanas pelo período mínimo de seis meses.

Na comunidade científica, o Imlygic é classificado como um vírus oncolítico, que ataca o tumor e estimula o sistema imunológico a continuar reconhecendo e destruindo as células cancerígenas. A Amgen é a primeira a conseguir aprovação da FDA, mas existem outros laboratórios trabalhando com esse tipo de terapia, como o Centro de Pesquisas em Oncologia Molecular do Hospital de Câncer de Barretos, no interior de São Paulo.

— A aprovação da FDA representa meio caminho andado — disse Matias Melendez, que pesquisa dois tipos de vírus oncolíticos no Hospital de Câncer de Barretos. — Quando existe um produto terapêutico totalmente novo, os requerimentos para aprovação são mais difíceis de superar. Como já existe um produto no mercado, as portas estão mais abertas.

A avaliação da FDA se deu com base em testes clínicos com 436 pacientes com melanoma metastático que não poderia ser removido cirurgicamente. As lesões foram tratadas com a droga pelo período de seis meses ou até o desaparecimento das lesões. O estudo mostrou que 16,3% dos pacientes que receberam Imlygic tiveram uma redução no tamanho das lesões, comparado a 2,1% do grupo de controle, que recebeu outra medicação. Entretanto, ressalta o órgão americano, “o Imlygic não mostrou melhoria em relação à sobrevida ou em melanomas que se espalharam para o cérebro, osso, fígado, pulmão ou outros órgãos internos”.

Melendez ressalta que o Imlygic é apenas a primeira de uma série de novas terapias que devem surgir com o uso de vírus. O objetivo é alcançar uma cura para a doença, mas qualquer ganho para o paciente, seja pela redução das doses de quimioterapia ou dos efeitos colaterais, deve ser comemorado.

— A inoculação do vírus é in situ, o que faz com que as outras células do corpo não sejam afetadas pelo tratamento — destacou o pesquisador.

O custo do Imlygic ainda é alto, estimado em US$ 65 mil, mas abaixo de outros tipos de tratamento, que normalmente custam mais de US$ 100 mil. A modificação genética faz com que o vírus do herpes fique debilitado, sendo presa fácil para o sistema imunológico quando fora das células cancerígenas. Mesmo assim, a FDA proíbe o uso em pacientes com o sistema imunológico suprimido ou em mulheres grávidas. Os efeitos colaterais observados nos testes clínicos foram fadiga, calafrios, febre, náusea, sintomas de resfriado, dor no local da aplicação e, claro, herpes.

— O melanoma avançado continua sendo uma doença complexa para se tratar, que requer o uso de várias modalidades durante o curso da jornada terapêutica do paciente — disse Howard L. Kaufman, presidente da Sociedade para a Imunoterapia do Câncer dos EUA. — Sendo uma terapia oncolítica viral, o Imlygic fornece uma abordagem única, mais uma opção para tratar pacientes após a cirurgia inicial.

Com informações de O Globo
Foto: www.the-scientist.com 


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