domingo, 15 de novembro de 2015

Veneno de abelha é usado para atravessar barreira cerebral com medicamentos

Trata-se de um novo “cavalo de Tróia para conquistar o cérebro”, disse o pesquisador do IRB, Ernest Giralt, que lembrou que o órgão é protegido por milhares de vasos capilares que formam uma barreira: “uma defesa e ao mesmo tempo uma contenção para a entrada de medicamentos para doenças do sistema nervoso central”, segundo o especialista.

“Este muro é responsável pela baixa taxa de sucesso de novos medicamentos para o cérebro, mas hoje já temos estratégias para superá-lo”, garantiu Giralt. O pesquisador, que também é professor da Universidade de Barcelona, organizou a conferência Blood Brain Barrier, que reuniu 20 de cientistas em Barcelona para expor seus últimos conhecimentos sobre a barreira e os avanços em veículos terapêuticos para o cérebro.

Alzheimer, tumores cerebrais, esquizofrenia, infartos cerebrais, epilepsia, demência e diversos tipos de falta de coordenação de movimentos musculares são algumas das doenças que afetam o sistema nervoso central e que precisam de medicamentos aplicados diretamente no cérebro para serem tratados. Conhecer biologicamente a compacta barreira hematoencefálica que protege o cérebro – “constituída por tantos capilares que mediriam 600 quilômetros se colocados lado a lado” – e buscar maneiras de superá-la é uma das estratégias para novos tratamentos com medicamentos potencialmente funcionais, mas incapazes de atravessar a barreira sozinhos.

“Hoje já avançamos o suficiente para que sejam feitos os primeiros testes clínicos com veículos de lançamento que superam a barreira, a responsável pela baixa taxa de sucesso em novos tratamentos”, segundo Giralt.

O primeiro cientista a elaborar o conceito de veículos de lançamento para atravessar a barreira do cérebro foi o americano da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), William M. Pardridge, em 1986. Cinco anos depois foi provada a viabilidade dos anticorpos, como os utilizados pelo sistema imunológico, como veículos capazes de atravessar a barreira.

A outra grande linha estratégica em veículos de lançamento foi proposta no início do século XXI: o uso dos peptídeos, que são proteínas menores e menos custosas que os anticorpos.

Giralt, que é especialista na química de peptídeos, incorporou essa linha de trabalho ao IRB em 2005, e agora começam ser alcançados os primeiros veículos de lançamento peptídicos capazes de atravessar a barreira. O último exemplo é um peptídeo baseado na apamina, uma proteína extraída do veneno de abelha que, com a toxicidade eliminada, supera a barreira e é duradoura em sangue, uma descoberta que foi publicada em outubro na revista alemã “Angewandte Chemie”. Além desse veículo de lançamento peptídico, o laboratório de Giralt elaborou mais dois baseados em outras estratégicas químicas.

No encontro científico inaugurado no Instituto de Estudos Catalães, o médico Jaume Mora, especialista em câncer cerebral do Hospital Sant Joan de Deu de Barcelona, explicará a colaboração com Giralt para acoplar um tratamento antitumoral aos veículos de lançamento peptídicos. Esse projeto, que envolve os dois cientistas e outros parceiros europeus, acaba de receber financiamento da União Europeia como parte do programa EuroNanoMed II.

“Uma vez esgotada a linha tradicional de buscar moléculas pequenas que retiravam a barreira, a estratégia dos cavalos de Tróia já começa a proporcionar resultados que nos tornam otimistas e abrem um leque de possibilidades terapêuticas para o tratamento das doenças do cérebro”, concluiu Giralt.

Com informações de Terra


Nenhum comentário:

Postar um comentário