sábado, 2 de janeiro de 2016

Estudo revela por que vacina contra a gripe é menos eficaz em idosos

Uma das populações mais vulneráveis a complicações decorrentes da gripe, os idosos também costumam ter uma resposta menos eficaz às vacinas sazonais contra a doença, assim como a outros imunizantes. As razões disso ainda são um mistério para os cientistas, mas agora um novo estudo, com participação de um pesquisador brasileiro, pode ajudar a revelar não só por que isso acontece como prever logo cedo se a vacina terá o efeito imunizante a mais longo prazo.

No estudo, que usou ferramentas de biologia molecular, genômica e bioinformática, os pesquisadores liderados por Bali Pulendran, da Universidade Emory, nos EUA, analisaram o sangue de 212 voluntários, dos quais 54 tinham mais de 65 anos, em diferentes momentos após receberem a vacina contra a gripe ao longo de cinco temporadas consecutivas de imunização, entre 2007 e 2011, além de dados semelhantes sobre outros 218 indivíduos de experimento anterior. Com isso, eles puderam identificar “assinaturas” moleculares comuns nas respostas imunológicas de jovens e idosos ao procedimento, que apresentaram diferenças sutis que podem explicar a menor eficácia das vacinas nos mais velhos e apontar já no dia seguinte à imunização quem estará mais protegido da doença quatro semanas depois, com um acerto de cerca de 80%.

Segundo os pesquisadores, logo após a administração da vacina o corpo convoca à ação células de defesa do chamado sistema imune inato, de atuação mais rápida, mas inespecífica, isto é, contra qualquer tipo de micro-organismo ou substância invasora. Entre estas células estão os chamados monócitos, que quando chegam aos tecidos passam a ser denominados macrófagos e são responsáveis pela fagocitose ou digestão de partículas estranhas ao corpo, gerando processos inflamatórios.

— Observamos que dentro destas células determinados conjuntos de genes são ativados e que esta ativação está relacionada com uma boa resposta de anticorpos lá na frente — conta Helder Nakaya, professor da Escola de Ciências Farmacêuticas da USP, do Departamento de Patologia em Emory e primeiro autor de artigo sobre o estudo, publicado no periódico científico “Immunity”. — Com esta reação de um dia, podemos prever o nível de proteção que a pessoa terá contra a doença um mês depois, e em geral os indivíduos mais velhos apresentaram uma ativação menor destes genes dos monócitos.

Além disso, uma semana após a aplicação da vacina, o sangue dos idosos apresentava uma contagem alta de monócitos, enquanto o dos mais jovens tinha níveis maiores dos chamados leucócitos B, células especializadas do sistema imune adaptativo que se “lembram” de contatos anteriores com determinado micro-organismo invasor e produzem anticorpos contra ele.

Ainda logo depois da vacinação, o corpo convoca um outro tipo de célula de defesa conhecido como leucócito “assassino natural”, também integrante do sistema imune inato. E aqui os pesquisadores encontraram outra pequena diferença na resposta imunológica dos voluntários mais jovens e dos mais velhos. De acordo com as análises, o sangue dos idosos apresenta uma contagem maior destas células, algo como se seus corpos usassem mais a resposta inata para se protegerem justamente porque a reação de seu sistema adaptativo é mais fraca.

— Juntos, estes resultados sugerem potenciais mecanismos com os quais mudanças na reação inata dos idosos podem resultar em uma resposta reduzida de anticorpos à vacinação — resume Shankar Subramaniam, professor da Universidade da Califórnia em San Diego e coautor sênior do estudo.

Segundo os pesquisadores, as descobertas podem guiar o desenvolvimento de novas gerações de vacinas e metodologias que forneçam imunidade maior e mais prolongada às pessoas, especialmente para populações de maior risco como os idosos. Eles também pretendem estudar se as mesmas diferenças de reação são observadas com imunizantes para outros vírus, como da herpes-zóster e da febre amarela.

— Embora ainda seja muito cedo para sugerir, abordagens suplementares, como reduzir a resposta inflamatória de pacientes idosos após a vacinação, podem ser caminhos valiosos a se seguir, mas isso vai exigir pesquisas mais longas e detalhadas — conclui Subramaniam.

Com informações de O Globo

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