domingo, 21 de fevereiro de 2016

Ataques cardíacos podem gerar sintomas diferentes nas mulheres

O coração de uma mulher esconde mistérios ainda não solucionados pela ciência. Mundo afora, médicos vêm observando que, quando sofrem um ataque cardíaco, elas podem apresentar sintomas diferentes da clássica dor no peito tão relatada por homens. No universo feminino, não é raro o problema ser acompanhado por alertas mais dispersos, como náuseas, vômitos, falta de ar, dor nas costas e no pescoço, sudorese e indigestão. A explicação para essas reações atípicas permanece um enigma, para o qual não há senão hipóteses, por enquanto. Mas, se há um consenso, é de que ataques do coração em homens e em mulheres são definitivamente diferentes — e devem ser estudados e tratados como tal.

Esta curiosa realidade levou a Associação Americana do Coração, referência mundial quando o assunto é cardiologia, a divulgar o seu primeiro relatório científico sobre as peculiaridades do ataque cardíaco feminino. Se, até pouco tempo atrás, acreditava-se que infarto era “doença de homem”, hoje quem fizer tal afirmação está sujeito a um puxão de orelha da comunidade médica internacional. Nas últimas décadas, elas passaram a sofrer tantos ataques cardíacos quanto eles, além de apresentar uma taxa maior de mortalidade em decorrência de infarto. No Brasil, por exemplo, pouco mais da metade das cerca de 100 mil pessoas que morrem de infarto todos os anos é composta por mulheres, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia.

— Nos últimos dez anos, a comunidade médica aprendeu que o coração das mulheres é diferente do coração dos homens em aspectos significativos. Mas ainda há muito para descobrir. As pesquisas sobre doenças cardiovasculares, em geral, são feitas em homens, então, nós categorizamos tudo com base neles. Precisamos de mais ciência com mulheres — ressalta a cardiologista Laxmi Mehta, do Programa de Saúde Cardiovascular de Mulheres da Universidade do Estado de Ohio, que liderou a elaboração do novo relatório.

O infarto é a causa número um de mortes no mundo e no Brasil. Quando se trata das mulheres, comenta Laxmi, o que contribui muito para esse índice é a escassez tanto de estudos quanto de diagnóstico e de tratamento. Uma vez que, até a menopausa, as mulheres têm o hormônio estrogênio como uma proteção natural contra doenças coronarianas, muitas vezes elas (e até mesmo seus médicos) se “esquecem” que podem ter esse tipo de problema. Além disso, como elas tendem a sentir o infarto de maneira diferente, frequentemente interpretam os sintomas de forma equivocada.

— As mulheres, em geral, subestimam ou negam esses sintomas — conta Laxmi. — E, quando elas finalmente se apresentam num posto de emergência, essas reações do corpo não são entendidas como problemas relacionados a uma doença coronariana em potencial. As consequências são diagnósticos mal feitos, atraso no tratamento e alta no índice de mortes. Ainda não entendemos claramente por que mulheres têm diferentes sintomas, mas sabemos que elas são mais complexas do que homens e que têm mais variáveis biológicas, tais como flutuações hormonais. É por isso que existe uma necessidade de mais pesquisa.

Resistência à dor

Por enquanto, há uma hipótese principal para explicar a ocorrência de sintomas além da conhecida dor no peito. Por causa de uma proteção prolongada pelo estrogênio, os vasos sanguíneos das mulheres se dilatam mais do que os dos homens. Isso impediria que as artérias fiquem completamente bloqueadas, aliviando a dor no peito. Porém, em contrapartida, daria margem para o surgimento de outros sintomas que pouco são sentidos pelos homens.
— Outra hipótese é a de que a mulher tenha mais resistência à dor — diz o cardiologista Mário Fritsch Neves, professor de Clínica Médica da Uerj. — Alguns estudos indicam que o limiar da dor, para elas, é mais alto. Com isso, elas podem até sofrer a mesma pressão no peito que os homens, mas não experimentam uma dor tão drástica.

O presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcus Bolívar Malachias, também explica que as mulheres costumam relatar a sensação de infarto usando muito mais palavras e formas de definir os sintomas do que o homem. — Elas dificilmente citam a palavra “dor”. Dizem que estão com um aperto no peito, um desconforto, um incômodo, uma angústia. E elas não se atêm às reações físicas, mas contam também sobre sentimentos, sensações abstratas, circunstâncias difíceis pelas quais podem estar passando. Algumas vezes, isso ajuda a mascarar o diagnóstico. E, quanto mais o atendimento para infarto demorar, mais comprometido ficará o músculo cardíaco — destaca ele.

Segundo Malachias, a mudança de rotina entre as mulheres nas últimas décadas colaborou para elas se equipararem aos homens nos índices de infarto e de mortes relacionadas a problemas cardíacos. As doenças coronarianas passaram a afetá-las com maior frequência porque, de acordo com especialistas, as mulheres se tornaram mais estressadas do que no passado. Também estariam fumando mais e desenvolvendo uma tendência ao sobrepeso e ao sedentarismo.

Dificuldade no tratamento 

Além disso, mesmo após um episódio de infarto, as mulheres, em geral, têm mais dificuldade para seguir um tratamento de reabilitação, segundo médicos. Isto ocorreria porque boa parte delas tem muitas responsabilidades em casa, com filhos e com trabalho.

— Mulheres são eficientes em insistir para que seus maridos sigam o tratamento após infarto. Mas, infelizmente, muitas delas não fazem de sua própria saúde uma prioridade — afirma a cardiologista Laxmi Mehta. — Isso contribui para resultados melhores em homens após um ataque cardíaco. No entanto, o médico Mário Fritsch Neves ressalta: não é qualquer tontura ou mal-estar que é indício de infarto em mulheres. Como é difícil rastrear sintomas tão genéricos quanto náusea ou dor nas costas, ele afirma que o mais importante é acompanhar a saúde do coração com exames periódicos. — Assim, a mulher não será pega de surpresa — diz ele.

Com informações de Globo

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