terça-feira, 8 de março de 2016

Anticorpo de sobrevivente do ebola pode virar terapia contra doença

O sangue de um homem sobrevivente da epidemia de ebola de 1995 no Congo pode ser a fonte de um tratamento eficaz contra esse vírus que chega a matar de 25% a 90% dos infectados. Hoje, não existe vacina ou terapia específica contra a infecção. As medidas oferecidas aos doentes incluem hidratação, controle da pressão arterial, o tratamento de complicações que possam surgir e, claro, o isolamento.

Os desafios em controlar a disseminação do vírus na epidemia que atingiu o oeste da África em 2014 e 2015 e matou mais de 11 mil pessoas, porém, mostraram a urgência de drogas que tratem a doença causada pelo ebola. Hoje, a transmissão do vírus entre humanos só tem registro em Serra Leoa. Segundo a Organização Mundial da Saúde, dois casos foram confirmados neste ano.

Um coquetel de três anticorpos provenientes de roedores imunizados já havia dado sinais do potencial de imunoterapias contra o ebola e está, neste momento, sendo testada em humanos. Mas um grupo de cientistas pode ter encontrado candidatos melhores. Os resultados do estudo, financiado pelos NIH (Institutos Nacionais de Saúde, dos EUA), foram publicados na revista científica “Science”.

Os pesquisadores obtiveram amostras de sangue de dois irmãos –um homem de 28 anos e uma mulher de 20, idades da época da infecção, em 1995– que haviam contraído o vírus e foram os únicos sobreviventes de uma família de 15 pessoas. O homem ficou em condições mais graves do que a mulher –e, uma curiosidade, até ajudou a tratar outros infectados após se recuperar e ficar imune–, e talvez por isso seus anticorpos tenham mostrado mais potência em neutralizar o vírus, mesmo mais de uma década depois. Essa ação foi observada contra variantes do vírus do ebola que circularam na epidemia recente e também em outros anos.

Um anticorpo do paciente, em especial, foi melhor em impedir a ligação do vírus com as células humanas. Essa molécula, batizada de mAb114, foi então testada em macacos rhesus que receberam uma dose letal do vírus. Como na vida real o tratamento pode demorar a chegar, os cientistas só injetaram o anticorpo nos macacos cinco dias após a infecção –e eles sobreviveram sem nenhum sintoma da doença. Essa é a primeira vez que um anticorpo demonstra a habilidade de neutralizar o vírus do ebola por essa interação entre o patógeno e seu receptor celular. A pesquisa também mostrou uma nova vulnerabilidade do vírus.

 





O Instituto Butantan, em São Paulo, também trabalha para criar o primeiro tratamento, à base de anticorpos, contra o vírus da zika –um soro que seria utilizado por grávidas infectadas.

Trilhões de opções 

O corpo humano possui uma notável capacidade de produzir diferentes anticorpos. Mesmo na ausência de um patógeno, são mais de 10.000.000.000.000 (dez quatrilhões) de possibilidades de anticorpos a priori. Temos, porém, muito menos genes do que isso –algo na casa dos 20 mil. Sabendo que os anticorpos são proteínas (que são produzidas por genes), a matemática da coisa não fecha.

A estratégia para ampliar o espectro de ação dos anticorpos é fazer um recorta-e-cola de DNA chamado de recombinação na célula B (ou linfócito B): os pequenos segmentos de algumas regiões do genoma são reorganizados nas mais diversas possibilidades. Com o volumoso arsenal anti-invasor, boa parte das bactérias e vírus acabam nem tendo chance de proliferar, mas outros patógenos escapam e motivam a produção de novos anticorpos.

Quando algum se liga ao invasor mas funciona “mais ou menos”, pode haver ainda uma etapa de maturação da molécula, quando a afinidade pelo alvo é aumentada –assim como a eficiência em neutralizá-lo.

Com informações da Folha de São Paulo

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