terça-feira, 24 de maio de 2016

Microesferas poderiam salvar pacientes cujos pulmões pararam de funcionar

Pesquisadores desenvolveram uma maneira de entregar o oxigênio aos órgãos do corpo de forma segura - através de micropartículas cheias de gás - mesmo quando os pulmões do paciente pararam de funcionar. Os médicos poderiam um dia usar o método para rapidamente reverter a privação de oxigênio em pacientes com perda aguda de função pulmonar, enquanto que correções a longo prazo, tais como o auxílio de circulação coração-pulmão são postas em prática.

Mesmo curtos períodos de privação de oxigênio colocam os órgãos vitais do corpo em risco. Normalmente, os médicos alimentam os pacientes privados de oxigênio com gás através de ventiladores, tais como tubos na boca ou nariz, mas o tratamento depende de pulmões em funcionamento. Em situações onde a via aérea é bloqueada ou os pulmões não funcionam, há poucas opções.

Em tais casos, injetar oxigênio puro para dentro do corpo não é uma opção, porque pode formar bolhas nos vasos sanguíneos e bloquear o fluxo de sangue. Alguns hospitais têm máquinas que podem oxigenar o sangue do paciente do lado de fora do corpo, mas o procedimento cirúrgico para ligar uma máquina desse tipo (bypass) é complicado e pode levar muito tempo em caso de emergência, diz o autor do estudo, John Kheir.

Como um colega do primeiro ano no Hospital Infantil de Boston, há alguns anos, Kheir tratou uma menina de nove meses de idade cujos pulmões foram danificados por pneumonia e estavam cheios de sangue. Nos 20 ou mais minutos que levaram para Kheir e seus colegas colocá-la na máquina de circulação coração-pulmão, ela sofreu lesão cerebral grave devido aos baixos níveis de oxigênio e morreu. A experiência levou Kheir a trabalhar para o desenvolvimento de um tratamento intravenoso de ação rápida que poderia ajudar pacientes como ela, com lesão pulmonar aguda grave. "A única maneira de salvar alguém assim seria injetar oxigênio diretamente na veia", diz ele.

Substitutos do sangue que transportam oxigênio estão disponíveis para transfusão, mas são conhecidos por causar efeitos colaterais perigosos e, além disso, dependem normalmente de pulmões em funcionamento. "Há realmente uma necessidade de algo que você possa puxar da prateleira, e dar às pessoas para que se recuperem desses períodos críticos", diz Ann Weinacker, médica do pulmão e de terapia intensiva da Clínica Stanford Chest.

As microesferas preenchidas com oxigênio de Kheir, relatadas hoje na Science Translational Medicine, possuem em torno de três micrômetros de diâmetro e são diluídos em uma solução comumente utilizada em transfusões, de modo que as partículas possam fluir mesmo através dos capilares menores do corpo. Em tubos de ensaio, os pesquisadores descobriram que o oxigênio transferido das microesferas para a hemoglobina, a proteína dos glóbulos vermelhos que transporta o oxigênio, dentro de quatro segundos. Em seguida, eles testaram as microesferas em coelhos anestesiados com traqueias bloqueadas. Embora os coelhos tenham sido asfixiados, seus corpos foram oxigenados e não mostraram sinais de lesão grave aos órgãos.

São necessárias mais pesquisas para determinar quanto tempo a terapia pode funcionar e para quantos pacientes poderia ser útil. "Situações em que você tem uma necessidade a curto prazo [de oxigênio] e tudo o mais está funcionando não são comuns", diz Gail Weinmann, um especialista em doenças do pulmão no Instituto NAcional de Coração, Pulmão e Sangue. Mas quando essas situações surgem, uma infusão rápida de oxigênio poderia salvar vidas, diz ela. "Como uma ponte, até 15 minutos podem fazer a diferença em algumas situações."

Kheir diz que o fornecimento de oxigênio intravenoso poderia ajudar não só nos momentos críticos quando as máquinas de bypass coração-pulmão estão sendo instaladas, mas também quando os pacientes estão sendo colocados em ventiladores na terapia intensiva. Pacientes instáveis com função pulmonar baixa também estão em risco de níveis muito baixos de oxigênio, diz ele. "[O objetivo] não é tornar os ventiladores obsoletos, e sim tornar os pacientes mais saudáveis", diz Kheir.

Kheir diz que mais trabalhos com modelo animal são necessários para explorar a utilidade clínica da tecnologia de microesferas, que ele e alguns dos co-autores do estudo estão patenteando. "Estamos testando a capacidade de estas partículas fornecerem oxigênio em outras situações clínicas, tais como parada cardíaca e hemorragia grave", diz ele.
A equipe também está trabalhando para tornar as microesferas mais estáveis, com o objetivo final de criar uma solução off-the-shelf que poderia estar pronta para uso rápido em situações de emergência.

Por Susan Young – Tradução de Milena Dropa (Opinno) 

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