quarta-feira, 25 de maio de 2016

Viciados em drogas usam antidiarreico para controlar abstinência

A epidemia de dependência em opiáceos que varre os Estados Unidos levou a uma nova forma de abuso de drogas que poucos especialistas conseguiram antever. Viciados que não conseguem comprar analgésicos estão consumindo Imodium e outros medicamentos para diarreia. Eles apelidaram essa prática de "a metadona dos pobres".

O ingrediente ativo do Imodium, a loperamida, pode dar barato se consumido em grandes quantidades e não custa caro. O problema é que, além de causar uma constipação desagradável, o excesso de loperamida por ser tóxico ou até mesmo fatal para o coração.

Um relatório publicado no site da revista "Annals of Emergency Medicine" listou duas mortes recentes em Nova York por abuso de loperamida. Além disso, pelo menos uma dúzia de casos de overdose que terminaram em morte ou em batimentos cardíacos irregulares com risco de vida foram registrados em cinco estados nos últimos 18 meses.

A maioria dos médicos só percebeu recentemente que era possível fazer um uso abusivo da loperamida e poucos deram importância ao assunto. Há pouco ou nenhum registro nacional do problema, mas toxicologistas e médicos que atendem em emergências hospitalares acreditam que o abuso dessa substância seja muito mais difundido do que sugerem os laudos escassos.

À medida que os esforços para limitar a prescrição de opioides aumenta, alguns especialistas temem que mais viciados recorram à loperamida – do mesmo modo que, durante a lei seca, alcoólatras recorriam a enxaguantes bucais quando a oferta de uísque secava.

"Já vimos pacientes que estavam fazendo uso contínuo de loperamida há meses", afirma William Eggleston, principal autor de um relatório recente sobre o assunto e toxicologista clínico do hospital da SUNY, a universidade estadual de Nova York.

"Alguns pacientes usam esse medicamento como entorpecente, outros usam como substituto quando não conseguem obter heroína ou morfina", explica Eggleston. Eles tomam a loperamida para aliviar sintomas de abstinência como dores musculares, vômitos, diarreias e náuseas.

Segundo Sarah Peddicord, porta-voz da Food and Drug Administration (FDA), o órgão está "ciente dos relatos recentes de efeitos adversos relacionados ao uso indevido ou abusivo desse medicamento para diarreia e de que ele vem sendo usado para tratar abstinência de opioides ou para produzir efeitos eufóricos".

Peddicord informou que a FDA está analisando o caso e que "tomará as medidas necessárias assim que possível".

Se tomada em doses adequadas, a loperamida é segura. A dose diária padrão é de quatro cápsulas que somam oito miligramas da substância. Mas viciados chegam a ingerir cem comprimidos de dois miligramas cada por dia durante várias semanas.

Em um dos caso relatados por Eggleston e seus colegas, um homem de 24 anos com privação de ópio tomou tanta loperamida que morreu. Uma análise toxicológica encontrou o equivalente a 25 vezes a dose padrão em seu sangue.

Em outro caso, um homem de 39 anos desmaiou em casa e morreu no hospital. A família disse que ele já tinha usado buprenorfina para controlar a abstinência de ópio, mas depois acabou migrando para drogas antidiarreicas.

Medicamentos antidiarreicos são baratos, legalizados e podem ser comprado facilmente e em grandes quantidades sem levantar suspeitas. Nos Estados Unidos, 400 cápsulas de loperamida custam apenas U$$ 7,59.

A loperamida, no entanto, já foi um medicamento vendido apenas sob prescrição e uma substância controlada, na mesma classe da cocaína e da metadona. Ela foi aprovada pelo FDA em 1976 e tornou-se isenta de prescrição em 1988.

Normalmente, a loperamida age sobre os receptores opioides do trato gastrointestinal e não entra no sistema nervoso central. Nas doses recomendadas, não dá barato e tem pouco risco de causar intoxicação. Mas grandes doses podem dar barato, dizem os médicos.

Alguns toxicologistas argumentam que as vendas de loperamida devem ser restringidas do mesmo modo que a pseudoefedrina, antes isenta de prescrição, tornou-se controlada na década passada para prevenir a fabricação de metanfetamina.

"Chegou a hora de alguém fazer alguma coisa para inibir a compra em grandes quantidades", afirma Chuck O'Connell, médico e toxicologista da Universidade da Califórnia, em San Diego, que disse ter visto duas overdoses durante atendimentos de emergência.

"Uma pessoa normal não precisa de 400 comprimidos por semana", diz ele. "Eu precisei de pouquíssimos durante toda a minha vida".

O'Connell escreveu um artigo para o periódico científico "HeartRhythm" falando sobre o caso de uma mulher de 28 anos que disse ter tomado entre 400 e 600 miligramas de loperamida por dia durante meses. O eletrocardiograma dela mostrou batimentos cardíacos perigosamente irregulares e condução elétrica anormal no coração.

Após desmaios consecutivos, ela procurou atendimento médico, mas mesmo no hospital continuou tomando 100 cápsulas de loperamida por dia, escondido dos médicos.

Depois de ter sido transferida para o hospital da universidade, ela confessou que vinha tomando comprimidos e decidiu parar com a droga. Em poucos dias, um eletrocardiograma mostrou que os batimentos cardíacos foram normalizados e que os desmaios diminuíram.

"Se você toma uma grande dose dessa substância, ela consegue penetrar a barreira hematoencefálica e agir no sistema nervoso central, causando sensação de euforia", explica O'Connell.

Os próprios usuários de drogas, no entanto, dizem que o barato causado pela loperamida não se compara àquele gerado por uso de opioides. "A loperamida com certeza dá barato e pode até matar, mas os riscos simplesmente não compensam o uso recreativo", disse um comentarista em um tópico sobre a droga na internet.

Outro usuário comentou que entre os pontos negativos da loperamida está a necessidade tomar laxantes o tempo todo. "Mas escapar da abstinência e não querer morrer são pontos positivos", disse.

Especialistas alertam que o abuso de loperamida pode passar despercebido porque exames de rotina não são capazes de detectá-lo.

"A toxicologia de urina que fazemos no hospital não busca por essa substância, então é possível que muitos casos passem despercebidos", afirma Amitava Dasgupta, toxicologista do hospital da Universidade do Texas.

Alguns usuários de loperamida chegam ao hospital em estado letárgico ou sem respirar, como se estivessem sofrendo de uma overdose de heroína. Naloxona, uma droga anti-opioide, pode ser usada para tratar esses quadros.

"Quando o exame de rotina volta negativo, os médicos podem concluir que o exame falhou ou, se o paciente tiver respondido bem ao medicamento, podem concluir que não foi nada de mais", diz Jennifer Dierksen, patologista do hospital da Universidade do Texas.

Em um dos casos relatados pelos médicos da Universidade do Texas, uma pessoa de 19 anos foi encontrada morta em casa com a bexiga distendida e cheia de urina. Mas os exames não detectaram uso de drogas, então, os médicos usaram um teste conhecido como espectrometria de cromatografia de massa líquida para identificar a presença de loperamida.

Todos os casos de problemas cardíacos associados ao uso indevido ou abusivo de loperamida devem ser relatados ao FDA, mas nem todos os médicos fazem isso.

"Quanto mais as pessoas soarem o alarme, mais rapidamente o FDA vai levar o problema a sério e tomar medidas", disse Eggleston. "Um primeiro passo seria controlar a venda desse medicamento."

A Johnson & Johnson, fabricante do Imodium, não quis comentar o assunto.

Com informações da Jornalista Catherine Saint Louis - Folha de S.Paulo

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