segunda-feira, 6 de junho de 2016

Estudo possibilita que diabético tipo 1 abandone a insulina através de transplante de ilhotas

Erika Totten realmente não se lembra do acidente de carro que sofreu.

Ela se lembra de partir da casa de seu amigo na Pensilvânia com seus filhos gêmeos de 2 anos de idade na parte de trás do carro e voltar para sua residência em North Hanover, NJ. Ela vagamente se lembra de sentir-se um pouco confusa e perdida. Mas a próxima coisa que ela se lembra, é de ter mergulhado com o carro em uma vala. Após a chegada da polícia e ambulância, ela foi encaminhada para o hospital.

Ninguém ficou ferido. Mas o acidente não foi realmente uma surpresa. Totten tinha desenvolvido diabetes tipo 1 com 21 anos depois de um caso grave de mononucleose que dizimou suas células beta produtoras de insulina. Desde o nascimento dos gêmeos, ela perdeu a indicação de quando seu açúcar no sangue diminuía a níveis muito baixos, fazendo-a perder a consciência.

Durante os primeiros cinco anos da doença, ela tinha experimentado dores de cabeça ou tremores que sinalizavam a baixa de açúcar no sangue, mas com o passar do tempo, esses sinais tinham diminuído. Hipoglicemia – severa baixa de açúcar no sangue – poderia vir em um lampejo, como fez naquele dia enquanto dirigia.

Foi assustador. E perigoso. Mas também a tornou uma excelente candidata para um estudo clínico dirigido por Michael Rickels, diretor médico do programa de transplante de ilhotas pancreáticas no Hospital da Universidade da Pensilvânia. Ele estava buscando transplantar ilhotas em doentes com maior risco de episódios de hipoglicemia súbitas e não reconhecidas.

Ilhotas são grupos de células alfa e beta do pâncreas que secretam glucagon e insulina, e que promovem as mudanças do açúcar no sangue. Pessoas com diabetes tipo 1 têm poucas, quando tem, destas células produtoras de insulina.

“Estávamos à procura de pessoas que tinham dificuldades para gerir este momento mais difícil de sua doença”, disse Rickels.

Os pesquisadores buscam uma alternativa para o transplante do pâncreas, um procedimento importante e invasivo, mas que pode oferecer ajuda para alguns pacientes. Transplantes pancreáticos se realizam, simultaneamente, com transplantes de rim – diabetes muitas vezes provoca insuficiência renal – acompanhada de outras doenças, como problemas cardíacos, o que muitas vezes demanda uma operação de seis a oito horas para muitos pacientes diabéticos tipo 1.

“Além disso, há poucos pâncreas disponíveis para transplante, uma vez que deve ser órgãos mais jovens e ainda sem danos”, disse Ali Naji, um cirurgião e co-diretor da Unidade de Diabetes do Tipo 1 em Penn. “Cerca de 10 por cento dos pacientes apresentam complicações técnicas fazendo com que os transplantes não funcionem. A maneira mais prática e atraente para resolver este problema é sermos capazes de recuperar e transplantar as ilhotas à partir de um amplo espectro de doadores”.

O estudo em que Totten participou, o maior de seu tipo, foi realizado por oito instituições onde todas seguiram os mesmos procedimentos operacionais padrões para a fabricação de um produto ilhéu.

Isso é importante para receber uma licença futura de um produto biológico pelo FDA, Food and Drug Administration dos EUA.

Cada pâncreas contém cerca de um a dois milhões ilhotas que estão envolvidas no controle do açúcar no sangue. Cerca de 300.000 a 700.000 são utilizadas no transplante de uma pessoa.

O procedimento envolve a entrega das ilhotas, derivadas a partir do pâncreas de um cadáver, através de uma veia que leva para o fígado. É feito com anestesia local e sedação consciente, e os pacientes podem permanecer acordados durante a infusão.

Enquanto Totten descreveu o processo como “nada demais”, os resultados se mostraram impressionantes.

Os pacientes são mantidos em terapia de insulina durante dois meses após o procedimento.

“Se os níveis de glicose continuarem normais, nós estabilizamos a insulinoterapia e observamos o quão bem as ilhotas estão funcionando para manter os níveis de glicose normal”, disse Rickels.

“Dos 11 pacientes que participaram na Penn, sete largaram a insulina e tiveram leituras normais de glicose depois de receber a doação de ilhotas”, disse Rickels. “Quatro foram capazes de sair da insulina, mas não tiveram leituras normais de glicose. Eles receberam ilhotas de um segundo pâncreas e também foram capazes de sair da terapêutica com insulina”.

Parar as injeções de insulina e alcançar níveis normais de glicose foi um objetivo da pesquisa, o segundo foi o de estabelecer mais baixas leituras A1C – um exame de sangue que fornece informações sobre os níveis médios de uma pessoa de glicose no sangue ao longo de três meses. O estudo define um ponto final primário de menos de 7 por cento para o A1C, com um objetivo secundário de menos de 6,5.

Todos os pacientes preencheram ambos os requisitos.
“Mesmo em centros de diabetes, apenas 30 por cento dos adultos alcançam A1Cs de menos de 7 por cento com as tecnologias atuais”, disse Rickels. “E em cerca de 8 por cento dos pacientes espera-se que experimente um evento de hipoglicemia grave”.

Para Totten, o transplante representou uma mudança de vida. Antes de sua transfusão, seu A1C chegava a 9 e 10 e ela ficava constantemente oscilando entre níveis muito altos ou muito baixos.

“Mentalmente, era horrível”, disse ela. “Eu queria desistir e tornei-me muito deprimida”.

O procedimento de transplante de ilhotas não é isento de problemas. O número de células pancreáticas disponíveis é limitado pelo número de doadores de órgãos. Além disso, os medicamentos imunossupressores necessários para a terapia das ilhotas, as mesmas drogas usadas em transplantes de órgãos, podem ter efeitos colaterais desagradáveis e até mesmo prejudiciais.

“Somente os pacientes mais gravemente afetados pela doença e dispostos a aceitar os riscos da imunossupressão à longo prazo estarão recebendo ilhotas por agora”, disse Rickels. Mas ao longo do tempo, ele vê o desenvolvimento de medicamentos de imunossupressão mais seguros para o uso à longo prazo e fontes alternativas de tecidos produtores de insulina que podem incluir ilhotas derivadas de suínos ou de células estaminais.

A boa notícia para pacientes atuais é que, uma vez que se submeter ao procedimento, já não mais precisará tomar insulina. Eles, no entanto, precisam seguir uma dieta saudável.

“Eles não ficam com o pâncreas normal 100 por cento”, disse Rickels. “Então, eles realmente precisam aderir a uma dieta adequada e de manter as recomendações de peso saudáveis que são importantes para todos os pacientes com diabetes”.

Eles também são convidados a monitorar seus níveis de glicose e de se submeter a cuidadosas consultas de acompanhamento para observar a rejeição das ilhotas.

“A esperança é que os resultados deste estudo façam parte de uma proposta de licença biológica ao FDA para oferecer transplante de ilhotas para pacientes com diabetes frágil e hipoglicemia grave. Se for aprovado, nós vamos ser capazes de obter o reembolso do seguro, o que permitirá novas pesquisas de campo”, disse Rickels.

Totten não tem arrependimentos.
“O procedimento me devolveu a vida anterior à diabetes”, disse ela. “Eu estou vivendo completamente livre da insulina, eu sou ativa com meus filhos, e se eu tiver uma baixa dos níveis de açúcar, eu posso sentir isso”.

Em muito rara ocasião em que ela experimenta uma baixa de açúcar, ela pode comer um alimento açucarado para combatê-la.

“É difícil de explicar às pessoas que nunca tiveram diabetes não controlada”, disse Totten. “Mas isso mudou completamente a minha vida.”

Com informações de TiaBeth e Philly 

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