quarta-feira, 29 de junho de 2016

Nova tecnologia transporta medicação para células

Testes realizados no Centro de Nanotecnologia e Engenharia Tecidual da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) mostraram a eficácia de um nanocarreador coloidal — “veículo” microscópico — em penetrar as camadas da pele e transportar às células doentes o medicamento necessário para matá-las. O Centro de Nanotecnologia e Engenharia Tecidual da FFCLRP já trabalha há algum tempo desenvolvendo estes sistemas para o tratamento de várias doenças, entre elas o câncer de pele e outros tipos de câncer.

Nesse estudo, a farmacêutica Natalia Neto Pereira Cerize utilizou um composto, o ácido 5-aminolevulínico (5-ALA), que depois de metabolizado pelas células doentes produz outro composto (a Protoporfirinia IX que mata as células doentes) que só é ativado quando exposto à luz visível, num procedimento conhecido como Terapia Fotodinâmica (TFD). A tecnologia já é usada em tratamentos clínicos para o câncer de pele.

Estudos com essa técnica, conduzidos nos laboratórios do Centro de Nanotecnologia da FFCLRP já haviam demonstrado o poder desses radicais livres (Protoporfirina IX) liberados pela TFD, contra as células doentes. Contudo, a substância ativada pela luz e aplicada sobre lesões na pele apresentava pouca penetração na epiderme e derme (camadas da pele), o que limitava sua aplicação tópica sem o auxílio de um “veículo” adequado.

“O desenvolvimento de uma estrutura em escala nanométrica, específica para este tipo de tratamento fez toda a diferença”, explica o orientador da pesquisa e professor do Centro de Nanotecnologia da FFCLRP, Antonio Claudio Tedesco, que, em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), conseguiu um novo sistema que encapsula a droga, aumenta o poder de penetração cutânea e atua especificamente, com liberação controlada do fármaco na célula cancerígena ou em lesões causadas por micro-organismos. “Este novo carreador veio abrir a possibilidade de seu uso em inúmeros outros estudos, voltados para muitas patologias diferentes”, garante Tedesco. É que, além do 5-ALA, estes nanocarreadores foram testados com outras drogas não permeáveis na pele, entre eles: um anti-inflamatório, uma vitamina e um antimicrobiano, com excelentes resultados.

Medicação exata

O sistema testado no trabalho de Natália utilizou Nanocarreadores Poliméricos Coloidais. Microscópicas partículas siliconadas que, como nanocápsulas, carregam uma droga o 5-ALA até a célula doente, que origina o tumor de pele, liberando a quantidade exata de medicação. O 5-ALA é considerado um pró-fármaco. Na forma de um creme (produzido nos laboratórios do próprio Centro de Nanotecnologia), ele é aplicado sobre a lesão e, em seguida, recebe luz para ativar a Protoporfirinia IX (substância ativa que mata a células doentes). Tedesco adianta que apenas a área com lesão recebe luz visível e tem ação positiva na morte das células. O medicamento e a luz, sozinhos, nada fazem; apenas os dois juntos atingem o objetivo de destruir as células com câncer.

Sobre os “novos veículos carreadores siliconizados”, o professor diz que ainda estão em fase de testes pré-clínicos. “Outros nanocarreadores vêm sendo utilizados com sucesso no tratamento de pacientes nos ambulatórios parceiros no desenvolvimento desta pesquisa envolvendo o câncer de pele”. Quanto à droga, o 5- ALA, e a ativação com luz visível, informa que são exatamente os mesmos já utilizados em tratamentos envolvendo Terapias Fotodinâmicas contra o câncer em vários países do mundo e no Brasil. A única mudança e novidade que a pesquisa atual desenvolveu foi introduzir o novo carreador (as microcápsulas de silicone). “Isto abre a possibilidade de se aplicar um creme contendo o 5-ALA nanoestruturado sobre a lesão, aplicar a luz, e induzir a morte das células doentes”.

O que estes nanocarreadores têm, em especial, é que permitem o desenvolvimento de uma nova família de medicamentos para uso tópico, utilizando uma nova plataforma de trabalho com os nanocarreadores siliconizados. Outros sistemas — poliméricos, proteicos e mistos, que, igualmente, liberam lentamente os conteúdos que encapsulam — estão em teste para tratar outras doenças, inclusive câncer. Existem ainda aqueles que comprovadamente permeiam a barreira que protege o Sistema Nervoso Central, usados em estudos para o tratamento de mal de Parkinson e Alzheimer.

O professor adianta que os estudos com esses carreadores que conseguem ultrapassar a proteção do Sistema Nervoso Central estão bem adiantados, abrindo “nova linha de estudos voltados para tratamento de doenças neurodegenerativas e, até mesmo, o câncer de cabeça, conhecido como glioma”. Já para o câncer visceral, Tedesco diz que “o correto é utilizar outros carreadores específicos que vão diferenciar a célula normal da com câncer”. Em um editorial recente escrito pelo pesquisador para a revista Nanomedicine, (uma das 17 mais importantes da área no mundo), Tesdesco descreve a potencialidade do uso combinado da Nanotecnologia, Engenharia de Tecidos e TFD em várias pesquisas desenvolvidas pelo grupo.

A patente do nanocarreador sliconizado já foi registrada no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) e depositada nos Estados Unidos. Com o sucesso dos resultados clínicos a serem desenvolvidos em breve, espera-se que a industrialização em larga escala também se torne realidade. A tese de doutorado de Estudo de sistemas nanocarreadores para o ácido 5-aminolevulínico com aplicação na terapia fotodinâmica foi defendida por Natalia em maio de 2012 na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP.

Por Rita Stella, de Ribeirão Preto - Com Breno Berlingeri Campos, do Serviço de Comunicação Social da Prefeitura USP de Ribeirão Preto 
Imagem: Marcos Santos/ USP Imagens

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