segunda-feira, 20 de março de 2017

Fungo pode estar ligado à doença crônica e sem cura que afeta o intestino

Nos últimos anos, o trato gastrointestinal tornou-se o centro de muitas pesquisas que investigam o papel da microbiota na saúde humana. As bactérias viraram o foco da maior parte desses trabalhos, principalmente quando se buscam respostas para um mal ainda sem causa definida e que traz inúmeros prejuízos aos pacientes: a doença de Crohn. 


Essa condição crônica se caracteriza por uma grave inflamação que afeta o intestino grosso e o delgado. Entre os sintomas estão dor e distensão abdominal, fadiga, diarreia, febre, sangramento retal, perda de apetite e emagrecimento.

Agora, pesquisadores da Universidade de Ciências da Saúde de Utah, nos EUA, propõem que se desvie o olhar das bactérias e que se comece a enxergar também um fungo muito comum que ocorre naturalmente no organismo. 

Quando equilibrado, o Saccharomyces cerevisiae não causa qualquer problema. Inclusive, a levedura é ingrediente de alimentos como cerveja e pão. Contudo, já foi observado que pacientes da doença de Crohn produzem mais anticorpos contra o fungo, um sinal de que esse microrganismo possa estar envolvido no desenvolvimento da doença.

A partir desse conhecimento, os cientistas de Utah desenvolveram um modelo de rato com uma condição no trato gastrointestinal semelhante à doença de Crohn em humanos. Nesses animais, eles estimularam o aumento da colonização do Saccharomyces cerevisiae. O que se observou foi um aumento dos sintomas, como perda de peso, sangramento e diarreia. 

Ao examinar a composição do intestino das cobaias, os cientistas descobriram uma concentração alta de compostos ricos de nitrogênio, chamados purinas. De acordo com os pesquisadores, esse fungo não consegue degradar as purinas acumuladas e acaba as transformando em ácido úrico, que, por sua vez, piora a inflamação.

Além do estudo com ratos, os pesquisadores examinaram amostras de fluidos retirados de adultos saudáveis e descobriram que, naqueles onde havia um número maior de anticorpos para o Saccharomyces cerevisiae, os níveis de ácido úrico também eram mais elevados. Ao tratar as cobaias com um medicamento genérico chamado alopurinol, usado para prevenir a produção de ácido úrico em pacientes de gota, os sintomas diminuíram drasticamente. 

“Nosso trabalho sugere que, se pudermos bloquear o mecanismo que leva à produção do ácido úrico, talvez, com o alopurinol, os pacientes com uma concentração alta de anticorpos para o S. cerevisiae possam ter uma nova opção de tratamento”, disse, em nota, a patologista June Round, principal autora do estudo.

Diagnóstico tardio

Luiz Felipe Lobato, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, explica que, atualmente, o tratamento para doença de Crohn é clínico e/ou cirúrgico. No primeiro caso, são usadas medicações que, muitas vezes, são bastante caras. “Para se ter ideia, a dose de alguns desses medicamentos pode chegar a custar R$ 3 mil, e um paciente pode ter de tomar de três a quatro doses por mês, para o resto da vida”, afirma. 

Esses medicamentos são custeados pelo Sistema Único de Saúde. Quando o intestino da pessoa afetada apresenta cicatrizes, como resultado do processo inflamatório crônico, a única solução é uma cirurgia para retirar a lesão. Depois da operação, parte dos pacientes precisa continuar tomando os medicamentos para evitar o surgimento de novas fibroses.

O médico lamenta que muitas pessoas deixem para procurar ajuda quando a situação está grave. “Um dos grandes dramas é que, como não é um processo agudo, o paciente não consegue perceber os sintomas. Ele vai abrindo mão de alimentos que o fazem sentir mal e, sem perceber, já está desnutrindo”, diz. Lobato alerta para o risco de autodiagnóstico baseado em modismos. 

“Ele acha que é intolerante a glúten, lactose, vai cortando mais alimentos e pode perder até 30 kg. O paciente, infelizmente, vai se acostumando com os sintomas e, sem perceber, abre mão de partes importantes da sua vida, como lazer, trabalho, vida sexual e até convívio familiar.” 

Com informações do Correio Braziliense 

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