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domingo, 30 de abril de 2017

Bebidas diet associadas a aumento do risco de acidente vascular encefálico e demência

Novas indagações sobre a segurança dos refrigerantes diet surgiram na sequência de um estudo ligando o consumo de bebidas adoçadas artificialmente ao acidente vascular encefálico e à demência.

O estudo, publicado on-line em 20 de abril no periódico Stroke, revelou que o consumo de uma lata de refrigerante diet ou mais por dia foi associado a risco três vezes maior de acidente vascular encefálico e de demência em comparação às pessoas que não tomavam bebidas com adoçantes artificiais ao longo de um período de acompanhamento de 10 anos.

"Atualmente existem muitos estudos sugerindo efeitos prejudiciais do consumo de bebidas adoçadas com açúcar, mas creio que também precisamos considerar a possibilidade de que as bebidas diet possam não ser alternativas saudáveis", disse o primeiro autor Matthew P. Pase, pesquisador da Boston University School of Medicine em Massachusetts.

"Não pudemos mostrar uma relação de causa e efeito neste estudo, pois o seu modelo é observacional, mas dada a popularidade das bebidas diet precisamos desesperadamente de mais pesquisas sobre este assunto".

Ele não recomenda parar o consumo de bebidas diet com base nestes dados, acrescentou, "mas gostaria de recomendar cautela – especialmente para as pessoas que consomem várias bebidas diet por dia. Acredito que precisamos repensar o lugar destas bebidas".

É possível que esta observação possa ser decorrente de uma relação de causalidade reversa, observou ele. "Não está claro se os refrigerantes diet estão causando a ocorrência de AVE e de demência ou se pessoas com problemas de saúde ​​tomam mais essas bebidas do que pessoas saudáveis."

"Se você já tiver fatores de risco cardiovascular, é provável que tenha sido aconselhado a reduzir a ingestão de açúcar e assim pode ter evitado as bebidas adoçadas com açúcar substituindo-as pelas bebidas diet", disse Pase. "Constatamos que o maior consumo de refrigerantes diet foi relacionado com diabetes no início do estudo, mas, novamente, não sabemos o que veio primeiro. Será que as bebidas diet aumentam o risco do diabetes, ou será os pacientes diabéticos escolhem as bebidas diet por terem de restringir a sua ingestão de açúcar"?

A relação entre refrigerantes diet e demência tornou-se não significativa quando ajustada pelos fatores de risco vascular. Pase sugeriu que isso pode ter ocorrido devido ao fato desta associação poder ser mediada pelos fatores de risco vasculares – os adoçantes artificiais podem estar aumentando os fatores de risco vascular. "Ou pode ser que as pessoas com fatores de risco vasculares tomem mais refrigerantes diet, o que é perfeitamente possível, já que elas podem ter sido orientadas a reduzir o consumo de açúcar".

A ligação com o acidente vascular encefálico isquêmico se manteve em todos os modelos após o ajuste por todos os outros fatores de risco.

As bebidas açucaradas não foram associadas a acidente vascular encefálico ou risco de demência, mas os autores dizem que isso não deve ser tomado como prova de que elas sejam seguras.

"Muitos outros estudos sugerem efeitos nocivos pelo consumo de refrigerantes açucarados, e nós não tivemos um número suficiente de participantes que tomam este tipo de bebida no nosso estudo para obter informações fidedignas a esse respeito", disse Pase. "Tivemos um número muito maior de pessoas que informaram consumo bebidas diet".

Outro estudo do mesmo grupo publicado on-line em 5 de março no periódico Alzheimer´s and Dementia, mostra a relação entre o consumo de bebidas adoçadas com açúcar ou adoçante artificial e a redução do volume do cérebro em uma coorte de participantes de meia-idade. Neste estudo transverso as bebidas contendo açúcar, como os refrigerantes e os sucos de frutas, também foram associadas a pior memória episódica.

"A maior ingestão total de bebidas, sucos de frutas e refrigerantes açucarados foram todos associados a características de doença de Alzheimer pré-clínica," concluíram os autores. "É necessário fazer novos estudos para confirmar nossos resultados e avaliar se as bebidas adoçadas com açúcar têm associação longitudinal com a piora da doença de Alzheimer subclínica e com a ocorrência da doença de Alzheimer".

Comentando esses estudos para o Medscape, Keith Fargo, diretor dos programas científicos e de divulgação da Alzheimer's Association, disse: "Os dois estudos são difíceis de interpretar – as conclusões são um pouco diferentes entre os dois – mas os dados epidemiológicos são confusos".

Ainda assim, acrescentou, "estes dois trabalhos certamente emitem sinais de alerta, porém nenhum deles sugere que possamos tomar uma medida simples cortando refrigerantes e/ou sucos para reduzir nosso risco de acidente vascular encefálico ou demência. Temos de ver todo o quadro da alimentação e da prática de exercícios, do qual este é apenas um pequeno recorte."

"Nos dois artigos, é mais fácil entender que o alto consumo de açúcar não está fazendo bem para o cérebro, contudo há cada vez mais evidências na literatura de que as bebidas diet não são necessariamente a panaceia que algumas pessoas um dia acreditaram que fossem", observou Dr. Fargo.

"Não podemos afirmar a partir desses dados que alguém que tome refrigerantes diet de vez em quando terá um risco significativamente maior de demência. É tudo mera especulação. A melhor coisa que podemos fazer é realizar mais estudos para nos aprofundar nesta questão. As recomendações para a saúde provavelmente não serão simples, contudo substituir uma bebida açucarada por uma bebida com adoçantes não seja o ideal. O ideal é esquecer as bebidas doces e só beber água."

No estudo publicado no periódico Stroke, os pesquisadores analisaram os dados da coorte Framingham Heart Offspring Study sobre o consumo de bebidas adoçadas com açúcar ou adoçadas artificialmente e a incidência do primeiro AVE ou do primeiro diagnóstico de demência.

A coorte de acidente vascular encefálico teve 2.888 participantes com 45 anos ou mais (média de idade de 62 anos) e a coorte de demência teve 1.484 participantes com 60 anos ou mais (média de idade de 69 anos).

Todos os participantes tinham respondido regularmente questionários sobre sua alimentação. Para o estudo atual, os pesquisadores priorizaram o consumo de bebidas entre 1991 e 2001 e a ocorrência de AVE ou demência nos 10 anos subsequentes.

Houve 97 casos de acidente vascular encefálico (82 isquêmicos) e 81 casos de demência (63 compatíveis com doença de Alzheimer).

Os resultados mostraram que após os ajustes por idade, sexo, escolaridade (para a análise da demência), ingestão calórica, qualidade da alimentação, atividade física e tabagismo, o maior consumo recente e o maior consumo acumulado de refrigerantes adoçados artificialmente foram ambos associados a aumento do risco de acidente vascular encefálico isquêmico, demência de qualquer etiologia e demência da doença de Alzheimer.

Quando os pesquisadores compararam a ingestão acumulada diária a não consumir nenhuma bebida doce por semana (zero, de referência), as taxas de risco foram 2,96 [intervalo de confiança de 95% (IC) de 1,26 a 6,97] para o acidente vascular encefálico isquêmico e 2,89 (IC 95% de 1,18 a 7,07) para a doença de Alzheimer.

Em relação aos resultados das bebidas diet, disse o autor, "descobrimos que as pessoas que tomaram pelo menos uma lata de refrigerante diet por dia tiveram um risco três vezes maior de AVE e de demência do que as pessoas que não tomaram bebidas diet."

Ele observou que uma ingestão mais baixa (entre uma e seis bebidas por semana) continuou associada ao acidente vascular encefálico, mas não à demência.

As bebidas açucaradas não foram associadas ao acidente vascular encefálico nem à demência.

Além do menor número de consumidores de bebidas açucaradas, houve também a possibilidade de que estes participantes que tomavam refrigerantes com açúcar pudessem ter morrido de doença cardíaca durante o período de estudo e assim não puderam ser incluídos nos desfechos de acidente vascular encefálico e de demência, disse o pesquisador.

Pase afirmou que não se sabe como os refrigerantes diet poderiam prejudicar a saúde, mas que alguns dados sugerem que os adoçantes artificiais podem predispor ao ganho de peso.

"Estudos feitos com animais demonstraram que os ratos que recebem adoçantes artificiais ganham mais peso do que os ratos que recebem uma dieta idêntica sem adoçantes artificiais", disse. "Estes adoçantes artificiais também têm sido associados a uma alteração da composição da flora bacteriana intestinal e ao aparecimento da intolerância à glicose. Há alguns dados sobre isso em seres humanos também, mas é muito mais difícil conseguir demonstrar causa e efeito em seres humanos."

Ele acrescentou: "Existe a possibilidade de que a associação entre a o sabor doce e as calorias se desfaça no cérebro ao consumirmos adoçantes artificiais. O cérebro está condicionado a esperar calorias ao detectar o sabor doce, mas quando isso não acontece, talvez as pessoas tendam a compensar com outro alimento doce".

Marcadores de doença de Alzheimer pré-clínica

No estudo publicado no periódico Alzheimer's and Dementia, os pesquisadores, também liderados por Pase, usaram dados do Framingham para estudar possíveis ligações entre ingestão de bebidas açucaradas e bebidas adoçadas artificialmente e resultados dos marcadores neuropsicológicos (N = 4.276) e na ressonância magnética (N = 3.846) de doença de Alzheimer pré-clínica.

Os pesquisadores descobriram que o maior consumo total de bebidas açucaradas foi associado a menor volume cerebral total e menores pontuações nos testes de memória. Em comparação a não tomar nenhuma bebida açucarada, a diferença no volume total do cérebro associada ao consumo de uma a duas, ou mais que duas bebidas açucaradas por dia foi equivalente a 1,6 e 2,0 anos de envelhecimento cerebral, respectivamente, e a diferença de pontuação nos testes de memória foi equivalente a 5,8 e 11,0 anos de envelhecimento cerebral, respectivamente.

Um maior consumo de refrigerantes foi associado a menor volume cerebral total e pior desempenho em um dos testes neuropsicológicos.

No editorial que acompanha o estudo publicado no periódico Stroke, a respeito dos resultados com as bebidas diet, a Dra. Heike Wersching, médica e professora na Medizinische Fakultät Münster da Universität Munster em Munique, Alemanha, Hannah Gardener, e Dr. Ralph L. Sacco, ambos da University of Miami Miller School of Medicine na Flórida, EUA, reiteram que é difícil ter certeza se as associações observadas entre bebidas adoçadas artificialmente,  AVE e demência são causais ou refletem algum viés de causalidade reversa, sendo necessário realizar mais estudos.

Os editorialistas sugerem que os futuros estudos epidemiológicos possam incluir exigências de dados sobre flutuações ponderais anteriores, comportamento alimentar, modificações do consumo de bebidas adoçadas com açúcar ou adoçantes artificiais ao longo do tempo, e sobre as razões que levam as pessoas a escolher bebidas diet.

"O trabalho de Pase e colaboradores encoraja uma discussão mais aprofundada e mais pesquisas sobre esta questão, pois mesmo pequenos efeitos causais teriam consequências espantosas em termos de saúde pública, devido à popularidade dos dois tipos de bebidas ", concluem os editorialistas.

Eles acrescentam que a literatura atual é inconclusiva sobre a natureza causal das associações entre o consumo de bebidas diet e o risco de AVE, demência, diabetes mellitus e síndrome metabólica.

O crescente número de estudos epidemiológicos mostrando fortes associações entre o consumo frequente de bebidas adoçadas artificialmente e desfechos vasculares, no entanto, sugere que pode não ser razoável substituir ou promover estas bebidas como alternativas mais saudáveis ​​às bebidas adoçadas com açúcar.

"Tanto os refrigerantes adoçados com açúcar como os refrigerantes adoçados com adoçantes artificiais podem ser prejudiciais para o cérebro", eles concluem.

Stroke. Publicado on-line em 20 de abril de 2017. Abstract , Editorial
Alzheimer's & Dementia. Publicado on-line em 05 de março de 2017. Abstract

Com informações de Medscape

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