segunda-feira, 1 de maio de 2017

Biopsia líquida ganha espaço na detecção de mutações relacionadas à resistência terapêutica

Em casos de câncer de pulmão, a biopsia líquida substituirá a biopsia tradicional? Para o Dr. Marcelo Reis, pesquisador no Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, no Rio de Janeiro, a tendência é que, de fato, haja essa substituição, porém o processo não ocorrerá nesse momento, mas talvez em um futuro próximo. O especialista debateu o assunto com colegas durante o II Simpósio Nacional de Diagnóstico em Câncer de Pulmão – Oncologia D'OR Neotórax, realizado em março na capital fluminense e teve como chair o Dr.Luiz Henrique Araujo, médico do Grupo COI.

Feita principalmente a partir de amostras de sangue, mas também podendo utilizar outros fluidos biológicos como, por exemplo, urina, a biopsia líquida fornece uma amostragem geral, permitindo detectar células e DNA circulante. A nova técnica pode ser de utilidade quando há restrição de material ou quando a localização do tumor é de difícil acesso.

"A vigilância longitudinal da evolução clonal é essencial para a medicina de precisão, mas não pode ser efetivamente alcançada usando espécimes de biópsia de tecido, devido a questões de amostragem", disse durante apresentação Mariano Zalis, biomédico da Progenética e professor adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com Zalis, o método, que é minimamente invasivo, permite capturar a heterogeneidade tumoral de metástases. "Mas, não só o DNA tumoral, como também os exossomas, complexos proteicos multienzimáticos liberados pelo tumor", explicou.

Embora a técnica tenha potencial para ser utilizada antes do tratamento, atualmente, a aplicação dela ainda está restrita à fase de tratamento e ao pós-tratamento, sendo empregada tanto para monitorar a progressão da doença e a resposta à terapia quanto o possível desenvolvimento de resistência aos medicamentos.

"A ideia é saber se ela poderá ajudar também no rastreamento", disse Zalis, ressaltando que a sensibilidade do método está cada vez maior. Atualmente, a biópsia líquida tem sido feita principalmente por NGS (next generation sequencing) e por PCR (polymerase chain reaction) digital.

A Dra. Vera Luiza Capelozzi, professora e chefe do Laboratório de Genômica Pulmonar do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), explicou que as tecnologias usadas precisam ter sensibilidade muito alta, pois os alelos mutantes podem estar em frequências muito baixas.

O estudo AURA(AZD9291 First Time In Patients Ascending Dose Study), que avaliou o uso da droga AZD9291 em pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas (non small cell lung cancer, NSCLC) que tinham mutação positiva ativadora do receptor do fator de crescimento epidérmico (epidermal growth factor receptor, EGFR) utilizou a biópsia líquida no monitoramento dos pacientes.

Pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido usaram amostras de plasma de pacientes incluídos no estudo AURA para testar e comparar o desempenho de múltiplas plataformas na detecção de mutações EGFR. O cobas(®) EGFR Mutation test, plataforma não digital, e o BEAMing dPCR, plataforma digital, demonstraram alta sensibilidade para detecção de mutação T790M.

Outra investigação com dados do estudo AURA 2 mostrou que há alta concordância  entre o teste de plasma cobas e a análise de NGS em detectar T790M. Na mesma pesquisa, que foi apresentada na European Lung Cancer Conference de 2016, foi observado que em cerca de 60% dos pacientes com NSCLC positivos para T790M, a biopsia invasiva poderia ter sido evitada usando um teste de plasma. Mas, para pacientes EGFR inibidor de tirosina quinase resistente (EGRF-TKI-resistant) sem T790M detectável no plasma, os autores recomendam um teste tecidual.

O fato de a biopsia líquida necessitar de um número grande de métodos analíticos e poder gerar resultados falso-negativos e falso-positivos é uma das desvantagens apontadas pela Dra. Vera, bem como a indisponibilidade do método em muitos laboratórios. Além disso, afirmou a Dra. Vera, o uso em carcinoma de pequenas células é limitado. Outro problema é que o DNA extraído do plasma pode conter DNA fetal, o que complica a interpretação de um resultado negativo.

Por outro lado, a biopsia tecidual, além de ser um teste padronizado e empregado extensivamente, permite fornecer informações acerca das características morfológicas da amostra tecidual da qual o DNA vai ser extraído, bem como determinar a proporção de células tumorais e detalhes histológicos. Ele fornece ainda dados sobre a estrutura do tumor, características invasivas, atividade proliferativa e interações entre células neoplásicas e seu microambiente.

"O diagnóstico e o subtipo do câncer de pulmão precisam ser estabelecidos com base na histologia", disse a Dra. Vera, acrescentando que ainda
há algumas alterações genômicas que são mais facilmente detectadas em biópsias teciduais, por exemplo, nos genes ALK, ROS e RET ou amplificação de genes MET e FGFR1, por hibridização fluorescente in situ (FISH) ou imunohistoquímica.

A médica informou que, na perspectiva da Sociedade de Patologia Pulmonar, a biópsia líquida para detecção de mutações (resistência) já foi incorporada à prática clínica (T790M), porém ainda não há um padrão-ouro geral para testar ctDNA, e a rebiópsia permanece uma opção.

Com informações de Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck - Medscape

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