segunda-feira, 31 de julho de 2017

Antibiótico se mostra promissor no tratamento adjuvante da depressão maior

A minociclina (múltiplas marcas), um antibiótico de amplo espectro frequentemente usado para tratar a acne, pode ser um adjuvante útil para melhorar o funcionamento global e a qualidade de vida em pessoas com transtorno depressivo maior (TDM), mostra uma nova pesquisa.

"Este estudo fornece evidência preliminar da utilidade da minociclina como terapia adjuvante para a depressão. Além disso, contribuirá para a compreensão da biologia subjacente da depressão, e isso, por sua vez, pode fornecer alvos para novos agentes", disse ao Medscape a Dra. Olivia M. Dean, Deakin University School of Medicine, Victoria (Austrália).

O estudo foi publicado on-line em 1 de junho no Australian and New Zealand Journal of Psychiatry.

Hipótese inflamatória

Atualmente, os tratamentos convencionais para transtorno depressivo maior fornecem "taxas de remissão inadequadas de cerca de 30%, em média. Os adjuvantes são necessários para melhorar o tratamento padrão, ao focar em vias que geralmente não são alvo da terapia padrão", observa a autora.

A "hipótese inflamatória" sustenta que a depressão "surge do aumento da ativação imune". Essa visão é "embasada em observações de que a depressão é acompanhada por níveis aumentados de citocinas pró-inflamatórias", observam os autores.

A minociclina, um antibiótico tetraciclina, foi utilizada clinicamente para o tratamento em longo prazo da acne. Além da ação microbiana, estudos pré-clínicos demonstraram que ela podem inibir a ativação microglial, resultando em reduções na inflamação e em níveis mais baixos de citocinas inflamatórias.

"Existe evidência clínica crescente dos benefícios potenciais da minociclina no tratamento de transtornos psiquiátricos", incluindo relatos de casos de "melhora significativa dos sintomas depressivos com minociclina e recorrência na interrupção". Os autores acrescentam que a minociclina tem "boa tolerabilidade e baixo perfil de efeitos adversos".

"Muitas pessoas que apresentam remissão de sintomas depressivos não alcançam recuperação funcional completa", disse Olivia. O estudo, bem como outros realizados por seu departamento, é "dedicado a tentar encontrar terapias adjuvantes que possam preencher essa lacuna. A minociclina é um desses agentes".

Para investigar ainda mais o potencial papel da minociclina como terapia adjuvante para o transtorno depressivo maior, os pesquisadores realizaram um estudo controlado randomizado comparando 200 mg/dia de minociclina com placebo. O período de tratamento foi de 12 semanas, com avaliação de acompanhamento após quatro semanas.

Os participantes deveriam preencher os critérios do DSM-IV para a depressão unipolar, ter pontuação ≥ 25 na Escala de Avaliação de Depressão Montgomery-Åsberg (EADMA), e ter demonstrado estabilidade na terapia antidepressiva por pelo menos duas semanas antes da randomização. Os participantes não foram obrigados a se submeter a qualquer terapia para participar do estudo.

Medidas validadas da sintomatologia depressiva, impressão clínica global, qualidade de vida e estado funcional foram avaliados no início do estudo e nas semanas 4, 8, 12 e 16 (após a descontinuação do tratamento).

O desfecho primário foi a melhoria na pontuação EADMA. Medidas de eficácia adicionais incluíram as escalas de Melhora da Impressão Clínica Global (MICG) e Gravidade da Impressão Clínica Global (GICG), a Escala de Impressão Global do Paciente (IGP), e a Escala de Avaliação de Ansiedade de Hamilton (HAM-A). Os pesquisadores avaliaram a qualidade de vida com o Questionário de Prazer e Satisfação da Qualidade de Vida – Modelo Resumido (Q-LES-Q) e mediram o funcionamento usando a Escala de Funcionamento Social e Profissional.

Os pesquisadores designaram aleatoriamente 71 participantes para receber minociclina (n = 36) ou placebo (n = 35). Todos os participantes completaram pelo menos uma consulta após a inicial. Um total de 57 participantes completaram a fase de tratamento de 12 semanas, e 55 também completaram a avaliação de acompanhamento com quatro semanas. Os dois grupos continham significativamente mais mulheres do que homens, "refletindo a incidência do transtorno na população", sugerem os autores.

Melhora "altamente significativa"

Não houve diferenças no uso basal da medicação entre os pacientes que receberam minociclina e aqueles que receberam placebo. No geral, os participantes tiveram sintomas depressivos de moderados a graves, com pontuação EADMA inicial de 31,7 (± 4,0) e 31,0 (± 4,6) nos grupos placebo e minociclina, respectivamente. A duração média da doença desde o diagnóstico foi de aproximadamente 14 anos.

Cerca de 73% da amostra preencheram os critérios de depressão melancólica e aproximadamente 42% tinham transtornos de ansiedade associados.

Os pesquisadores não encontraram diferenças significativas na semana 12 entre os grupos da minociclina e placebo na mudança do desfecho primário – ou seja, EADMA (intervalo de confiança de 95% para o tamanho do efeito, IC TE = 0,46; -7,1, 3,2; P = 0,02). No entanto, houve uma diferença de 4 pontos entre os grupos no desfecho do tratamento. Não houve diferenças significativas na semana 16 no EADMA (IC TE = 0,41; -6,9, 3,5).

Houve uma tendência a melhora nos sintomas de ansiedade, como evidenciado nos escores de HAM-A, após 12 semanas de tratamento com minociclina (IC TE = -0,36; 6,7, 0,8, P = 0,057) e acompanhamento por quatro semanas (IC TE = -0,15 -6,4, 2,1; P = 0,068).

Por outro lado, os pesquisadores encontraram melhoria significativa (IC TE = 0,62; -1,8, -0,3; P = 0,022) durante a fase de tratamento de 12 semanas no GICG, que foi mantida no período de acompanhamento (IC TE = 0,33; -1,5, 0,0; P = 0,050). Essa melhora foi refletida na escala de IGP avaliada pelo paciente ao longo do período de 16 semanas (IC TE = -0,14; 2,9, 3,8; P = 0,017). No entanto, apesar de uma forte tendência, a IGP não alcançou significância no final da fase de tratamento de 12 semanas.

Houve melhora "altamente significativa" no funcionamento e na qualidade de vida no grupo da minociclina em comparação com os pacientes que receberam placebo. O grupo da minociclina apresentou melhoras ao longo do tempo até a semana 12, e elas foram mantidas na semana 16 na escala de Avaliação do Prejuízo de Funcionamento (IC TE = 0,79; -4,5, -1,4 P = 0,0002 e IC TE = 0,57; -4,3, -1,2, P = 0,0003, respectivamente).

Achados semelhantes foram obtidos no Q-LES-Q, que também foram significativos ao longo do tempo até as semanas 12 e 16 (IC TE = -0,12; 0,0, 0,2, P = 0,0048 e IC TE = -0,14; 0,0, 0,1, P = 0,0095, respectivamente).

Não houve diferença significativa no número total de eventos adversos (P = 0,999).

"Embora a diferença de 4 pontos entre a minociclina e o placebo nas pontuações EADMA não tenha sido significativa, ela é parecida com a magnitude da mudança observada com os antidepressivos convencionais", observa a autora.

A Dra. Olivia comentou que o estudo foi "relativamente pequeno, com 71 participantes. Os estudos padrão com antidepressivos geralmente contêm centenas de pessoas, o que indica que a melhora que observamos podem ser robustas. Portanto, embora não seja estatisticamente significativo, os 4 pontos de melhoria no EADMA podem ser vistos como clinicamente significativos".

Ela acrescentou que estava "animada por ter observado melhorias no funcionamento e qualidade de vida em pessoas que participaram do grupo de minociclina adjuvante".

Os pesquisadores observam que melhoras na impressão global, no funcionamento e na qualidade de vida "são cada vez mais reconhecidas como medidas mais abrangentes dos resultados clínicos".

Outra opção de tratamento

Comentando o estudo, o Dr. David Marks, professor-associado do Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento, no Duke University Medical Center, em Durham, Carolina do Norte, disse que o estudo "parece ser bem projetado", embora "um estudo maior pode ter uma melhor chance de demonstrar a eficácia da minociclina para a depressão".

Ainda assim, o estudo é "o primeiro estudo duplo-cego, controlado por placebo de minociclina para a depressão, e um passo importante na avaliação da utilidade deste medicamento para a doença", disse ele.

Além disso, e "talvez mais importante, acrescenta à literatura crescente abordando se a depressão pode ser tratada com drogas que reduzem a inflamação e promovem o crescimento neural".

O Dr. Marks observou que o estudo não tem "aplicabilidade clínica imediata" porque os resultados foram "tecnicamente negativos, em termos de embasar a eficácia antidepressiva da minociclina em um grupo de indivíduos com depressão". Além disso, "as mudanças nas práticas de tratamento normalmente resultam de múltiplos estudos maiores, e até mesmo em meta-análises".

No entanto, em pacientes selecionados que não responderam plenamente aos medicamentos antidepressivos mais utilizados, "certamente é apropriado tentar a minociclina, especialmente considerando o bom perfil de segurança deste medicamento", disse ele.

A Dra. Olivia concordou. "É sempre melhor ser cauteloso com pequenos estudos. No entanto, a minociclina demonstrou ser bastante bem tolerada durante longos períodos de tratamento e, como tal, deve ser considerada outra opção para o tratamento da depressão".

A pesquisa foi financiada por Deakin University, Florey Institute of Neuroscience and Mental Health, University of Melbourne, Barwon Health, Chulalongkorn University, Brain and Behavior Foundation (USA) e pelo fundo da Australasian Society for Bipolar and Depressive Disorders/Servier. A Dra. Olivia recebeu verbas de apoio de Brain and Behavior Foundation, Simons Autism Foundation, Stanley Medical Research Institute, Deakin University, Lilly, National Health andMedical Research Council, e da Australasian Society for Bipolar and Depressive Disorders/Servier. Outros autores do estudo declararam múltiplas fontes de apoio a pesquisa.

Aust N Z J Psychiatry. Publicado on-line em 1º de junho de 2017. Resumo

Com informações de Medscape 

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