quinta-feira, 20 de julho de 2017

Dieta rica em leite e derivados pode reduzir intoxicação por chumbo

Leite não é panaceia para qualquer intoxicação, como muitos acreditam. Mas é verdade que o alimento ajuda a proteger o organismo humano da ação de metais pesados, como o chumbo. E tudo se deve ao cálcio, mineral abundante no leite e seus derivados,  capaz de competir com o chumbo no organismo e fazer com que o metal tóxico seja eliminado com mais facilidade.

O poder neutralizador de nutrientes já presentes na dieta sobre compostos tóxicos  já é conhecido. Quanto ao chumbo, diversos estudos apontam para uma possível ação protetora do cálcio. Mas agora, grupo de pesquisadores de USP, Unifesp e Universidade Federal do ABC sugerem que a ingestão de leite e produtos lácteos pode diminuir concentrações de chumbo em trabalhadores cronicamente expostos ao metal.

Ao contrário de estudos anteriores, feitos com animais de laboratório ou populações expostas ambientalmente a baixas concentrações do metal, desta vez foram avaliados 237 funcionários de indústrias produtoras de baterias automotivas brasileiras. Conta Willian Robert Gomes, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP e responsável pela pesquisa, que estes indivíduos são “expostos ao chumbo por períodos longos, já que alguns passam anos trabalhando com o metal”.

Ao investigar as dietas desses trabalhadores, Gomes relacionou o consumo de leite e derivados e a influência do chumbo nos indivíduos expostos cronicamente ao metal. Além da dieta e estilo de vida, a pesquisa avaliou as concentrações do chumbo no sangue, plasma e urina.

Os resultados corroboram com achados anteriores. O cálcio – fornecido pela ingestão de leite e seus derivados – mostrou efeito benéfico contra o chumbo, mesmo nos casos de exposição crônica. Os trabalhadores que consumiam leite e derivados pelo menos três vezes por semana apresentaram concentrações médias de chumbo em seus organismos muito mais baixas que aqueles com ingestão menor desses produtos.

A concentração do metal no plasma (parte líquida do sangue) também ficou bem menor nesses indivíduos, o que indica que o chumbo “é menos suscetível a causar danos ao sistema biológico desses trabalhadores”, conclui o pesquisador. Por parâmetros toxicológicos, o plasma é considerado de grande importância pois está “relativamente livre para chegar até tecidos-alvo, como o cérebro, rins e medula óssea”.

Gomes enfatiza que as informações obtidas em seu trabalho dizem respeito à relação do trabalho com o agente tóxico e a nutrição – leite e seus derivados. De acordo com a legislação vigente, “as concentrações sanguíneas de chumbo encontradas em todos os indivíduos do presente estudo estão dentro do limite estabelecido”, diz.

Contra o chumbo o melhor é a proteção

A associação entre consumo de leite e derivados e menores concentrações de chumbo no plasma, encontrado no estudo, indica que estes indivíduos (que ingerem mais cálcio) podem estar menos sujeitos aos efeitos tóxicos. Porém, Gomes alerta para as medidas preventivas, principalmente nos casos de exposição em ambientes de trabalho.

O chumbo é fonte de intoxicação para os humanos, seja por exposições ambientais ou ocupacionais. Mas as atividades industriais são as mais preocupantes, com destaque para as fabricantes de baterias de automóveis, pela exposição crônica vivenciada por trabalhadores em todo o mundo.

Entre os efeitos adversos à saúde humana estão alterações hematológicas (relacionadas ao sangue); danos ao sistema nervoso central e periférico, como encefalopatia e neuropatia; distúrbios intestinais e danos aos rins, coração e sistema endócrino.

O metal tem ainda o poder de acumular-se em tecidos ósseos, atingindo meia-vida de até 30 anos. Assim, mesmo que a exposição tenha cessado, pode se deslocar pela corrente sanguínea durante algum processo de remodelação dos ossos, como a osteoporose.

Por esse motivo – capacidade de se ligar ao cálcio em processos biológicos – os efeitos inversos de suplementação de cálcio ajudam a reduzir os efeitos adversos à saúde causados pelo chumbo.

Mesmo com resultados positivos de uma simples dieta na redução dos males provocados pelo metal, o pesquisador afirma que a segurança de trabalhadores expostos ao chumbo só pode e deve ser garantida por meio do uso de equipamentos de proteção adequados – como luvas e máscaras – e da rigorosa observação das diretrizes legais.

Com informações do Jornal USP

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