segunda-feira, 31 de julho de 2017

Nem todas as dietas vegetarianas têm o mesmo efeito para risco de doença coronariana

Um novo estudo sugere que para reduzir o risco de doença cardíaca coronariana não basta simplesmente manter uma dieta baseada em vegetais, mas os alimentos dessa dieta precisam ser de alta qualidade.

Depois de duas décadas de acompanhamento de mais de 200.000 adultos, pesquisadores descobriram que a adesão a uma dieta baseada em vegetais, rica em grãos integrais, frutas, vegetais, nozes e legumes foi associada a um risco relativo substancialmente menor de doença cardíaca coronariana (DCC), enquanto seguir uma dieta baseada em vegetais, mas com alimentos menos saudáveis como grãos refinados e bebidas açucaradas teve um efeito adverso.

Os achados foram publicados em 17 de julho de 2017 no Journal of the American College of Cardiology.

"Acredito que uma importante contribuição desse artigo é a mensagem de saúde pública", disse a autora principal Ambika Satija (Harvard School of Public Health, Boston, MA).

"Só porque você é vegetariano ou come mais alimentos de origem vegetal não significa necessariamente que tenha uma dieta saudável. É importante pensar sobre a qualidade dos alimentos que se está consumindo; mais grãos integrais do que refinados, mais alimentos inteiros do que sucos – esta é a direção certa a tomar".

Ela observou que essa abordagem já se refletiu nas últimas Diretrizes dietéticas para americanos 2015–2020, que recomendam focar em alimentos ricos em nutrientes em todos os grupos alimentares.

A Dra. Alice Lichtenstein (Friedman School of Nutrition Science and Policy, Tufts University, Boston, MA) foi vice-presidente do comitê de diretrizes dietéticas dos EUA. "O que as diretrizes dizem é que há um número diferente de abordagens dietéticas – Mediterrânea, DASH (Abordagens Dietéticas para Impedir Hipertensão), ou vegetariana, que levarão ao mesmo resultado, e que não são inconsistentes com o que está sendo dito", disse a Dra. Alice, comentando os achados atuais.

"Porque não importa qual dieta básica você consome, e sim se você consome mais alimentos de origem vegetal, para que você tenha um melhor resultado", acrescentou ela. "O novo fato aqui é que nem todas as dietas baseadas em vegetais são criadas da mesma forma, e é preciso realizar um julgamento para escolher os alimentos de origem vegetal que você incluirá na dieta, assim como você julga os alimentos de origem animal que consome."

Estudos prévios associaram dietas baseadas em vegetais com um menor risco de doença cardíaca coronariana, mas definiram essas dietas de forma dicotômica como vegetarianas ou não, e trataram todos os vegetais igualmente, observam os pesquisadores no artigo.

Para superar essas limitações e entender como as reduções graduais dos alimentos de origem animal afetam a saúde cardiovascular, Ambika e colaboradores examinaram dados de questionários semi-quantitativos de frequência alimentar incluindo cerca de 133 alimentos, coletados a cada dois a quatro anos, de 73.710 mulheres no Nurses' Health Study (NHS), 92.329 mulheres no NHS2, e 43.259 homens no estudo Health Professionals Follow-Up.

Os dados foram reunidos em 18 grupos alimentares dentro de três grandes categorias (alimentos vegetais saudáveis, alimentos vegetais menos saudáveis, e alimentos de origem animal), e então ranqueados em quintis.

Pontuações positivas foram atribuídas a alimentos vegetais saudáveis (grãos integrais, frutas/vegetais, nozes/legumes, óleos vegetais, chá/café) e pontuações reversas por alimentos vegetais menos saudáveis (sucos de fruta, grãos refinados, batatas, bebidas adoçadas, doces/sobremesas) e alimentos de origem animal (gordura animal, sorvete, carne, miscelânea de alimentos de origem animal). As pontuações dos grupos foram somadas para criar índices de dieta baseada em vegetais.

Os índices variaram de uma mediana de 42-44 no menor decil, a uma mediana de 66-68 no maior decil. O consumo de alimentos animais variou de três a quatro porções por dia no menor decil, a cinco a seis porções por dia no maior decil.

Os participantes com as maiores pontuações no índice de dieta de origem vegetal (IDV) e no IDV saudável (IDVs) eram mais velhos, mais ativos, mais magros e com menor probabilidade de fumar do que aqueles com menores pontuações. De forma preocupante, os maiores consumidores da IDV não saudáveis (IDVns) eram mais jovens, menos ativos e com maior probabilidade de fumar.

Ao longo de 4.833.042 pessoas-ano de seguimento, 8631 participantes desenvolveram doença cardíaca coronariana, definida como infarto do miocárdio (IM) não fatal e doença cardíaca coronariana fatal.

Depois de ajuste completo para covariáveis relevantes, a adesão à IDV foi inversamente associada com DCC (hazard ratio, HR = 0,92 comparando extremos; IC de 95%, 0,83-1,01). A associação foi modesta, mas a Ambika disse que isso faz sentido pois a IDV é um agregado, e portanto os participantes que tinham o maior consumo de alimentos vegetais saudáveis e não saudáveis podem ter uma maior pontuação na IDV.

"Chegamos à ideia de que, se você é vegetariano, mas não sabemos a qualidade dos alimentos vegetais que você está consumindo, não sabemos qual será seu perfil de risco para DCC", acrescentou ela.

Quando a IDVs e a IDVns foram analisadas separadamente, no entanto, a associação inversa foi consideravelmente mais forte para a IDVs, reduzindo o risco relativo de DCC em 25% (RR 0,75 comparando os decis extremos; IC de 95%, 0,68 – 0,83, P < 0,001 para tendência). Ao mesmo tempo, a IDVns foi positivamente associada a um risco relativo 32% maior de doença cardíaca coronariana (RR 1,32 comparando os decis extremos; IC de 95%, 1,20 – 1,46, P < 0,001 para tendência).

As associações da IDVs e IDVns com o risco de doença cardíaca coronariana foram consistentes através das idades, IMCs, história familiar de doença cardíaca coronariana e gênero.

As associações dos dois índices foram significativamente mais fortes entre os participantes mais ativos em relação aos menos ativos (P para a interação = 0,002 para ambos), um achado que deve ser interpretado com cautela, segundo Ambika. "Não sabemos exatamente o que acontece, e seria bom avaliar em um estudo em que sejam realizadas tanto intervenção na atividade física quanto modificações dietéticas".

Para quantificar o benefício da IDVs devido ao menor consumo de carne vermelha, o modelo final foi individualmente ajustado para essa variável, e os resultados não mudaram amplamente (RR 0,93 para os decis extremos de IDV; IC de 95%, 0,84-1,03).

"Para aquelas pessoas que querem melhorar as próprias dietas, desejam ter uma dieta vegetariana ou vegana mas acham que essa mudança é muito extrema ou que não elas serão capazes de realizar essa grande mudança no estilo de vida, essas são boas notícias", disse aAmbika. "Porque mesmo se você reduzir a quantidade de alimentos de origem animal em algumas porções por dia, ainda haverá benefício em termos de risco para doença cardíaca coronariana".

Em um editorial de acompanhamento os Drs. Kim Allan Williams e Hena Patel (Rush University Medical Center, Chicago, IL) acrescentam que essa não é uma proposição de tudo ou nada: "Assim como a atividade física é um continuum, talvez uma ênfase em começar com pequenas modificações dietéticas ao invés de grandes mudanças seja mais encorajadora e sustentável.

Embora o estudo não possa avaliar os benefícios de uma dieta puramente vegana, eles observam que ele "acrescenta evidências de gradações de adesão a uma IDV com a incidência a doença cardíaca coronariana, de forma que seria possível propor uma abordagem calcada em risco para a prescrição de dieta baseada em vegetais: prevenção secundária após eventos cardiovasculares e pacientes de alto risco tendo uma recomendação mais forte para uma dieta vegetal estritamente saudável".

Finalmente, enquanto uma dieta baseada em vegetais é mais sustentável em termos de ambiente, Williams e Patel apontam para as implicações potenciais de uma dieta mais saudável em termos de redução de custos de saúde. "Se, por exemplo, uma adoção disseminada de nutrição de base vegetal reduzir a incidência de hipertensão para 25% da taxa atual, isso poderia resultar em economia de quase 30% no orçamento do Medicare".

O estudo foi apoiado por fundos de pesquisa dos National Institutes of Health. Ambika não relatou conflitos de interesse. As declarações de coautores estão listadas no artigo. Os Drs. Alice, Williams, e Patel não relataram conflitos de interesse relevantes.

Com informações de Medscape

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